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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Mal da Segunda-Feira


O “mal da segunda-feira” ou mioglobinúria paralítica é uma miosite, um processo inflamatório, que acomete os músculos esqueléticos dos membros posteriores do cavalo, causado por acúmulo de ácido lático. Geralmente ocorre em eqüinos superalimentados com concentrado durante longo período de repouso e submetidos, posteriormente, a exercícios físicos fatigantes. Essa miosite também pode ser chamada mioglobinúria paralítica, ou azotúria. Alguns também a chama de tying-up, rabdomiólise por esforço ou amarração, que pode ocorrer também como seqüela de processos cirúrgicos ou qualquer situação de stress do animal como cólica, doenças infecciosas, condições adversas de tempo, transporte. Aqui cabe uma consideração: Apesar de serem distúrbios similares (mecanismo, sinais, sintomas e tratamento), mioglobinúria paralítica é uma patologia diferente de amarração; a primeira moléstia é grave e a segunda branda. Outras diferenças são vistas na clínica (intensidade de sinais clínicos) e na microscopia (histopatologia). Considerações feitas vamos ao mecanismo das miosites em questão.Em condições de exercício intenso, o músculo trabalha em anaerobiose (produção de energia na ausência de oxigênio) e, quando está superalimentado, uma excessiva quantidade de ácido lático é produzida. O ácido lático, quando acumula nos músculos, causa necrose, com destruição da membrana das fibras musculares (miofibrilas). Com o rompimento das miofibrilas é liberada grande quantidade de mioglobina que atinge a corrente sanguínea. Além da lesão muscular, a mioglobina liberada passa pelos rins, pigmentando a urina. Esse excesso de proteína no sangue e nos rins leva à azotúria ou azotemia (aumento uréia e creatinina no sangue) e pode causar lesão renal. Lesões renais e outras alterações sistêmicas podem levar o animal a óbito. O aumento do ácido láctico na corrente sangüínea, além das lesões musculares, causa um desequilíbrio ácido-básico no plasma levando ao aumento da freqüência respiratória, da freqüência cardíaca. Esse aumento da quantidade de ácido láctico também é responsável pelo fenômeno denominado acidose metabólica. O equilíbrio ácido-base e a acidose metabólica, assim como a insuficiência renal, são alterações importantes, mas serão tratadas em artigos posteriores.Os primeiros sinais do “mal da segunda-feira” podem surgir logo após o exercício, porém o mais comum é sua detecção na manhã no dia posterior ao exercício forçado. Os principais sintomas são stress muscular, rigidez à locomoção (o cavalo pode assumir a posição de cachorro sentado), tremores musculares, dor, incoordenação motora, urina escura e congestão das conjuntivas. Pode ainda apresentar sudorese (suor excessivo), desidratação e aumento nas freqüências cardíaca e respiratória e aumento da temperatura, principalmente na musculatura do membro posterior.Aos primeiros sinais um veterinário deve ser chamado uma vez que a doença pode ser fatal, dependendo da gravidade das lesões, e o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível. Além disso o veterinário indicará medidas para aliviar os sintomas e prevenir novos casos. A prevenção ainda é a melhor saída para se evitar a ocorrência da miosite. Alguns aspectos são importantes: a alimentação do cavalo deve ser predominantemente composta por verde (capim ou feno de boa qualidade), evitando excesso de concentrado (diminuindo da quantidade oferecida durante os dias em que o cavalo não é trabalhado); trabalhar o animal em dias alternados, pelo menos 20 minutos diários de liberdade ou trabalho ao cabresto (somente quando não for possível a liberdade); fornecer suplementação com vitamina E e Selênio. Deve-se, além de tudo, contar com um veterinário especializado para avaliação dos animais antes de iniciar um treinamento e respeitar suas orientações de treinamento e manejo. Se, com todos esses cuidados, seu cavalo ainda apresentar o mal da segunda-feira, comunique com o veterinário e respeite, sem ansiedade, o período de recuperação.A grande maioria dos casos de miosite é provocada pelo homem, por desconhecimento ou ansiedade por resultados (ou dinheiro). O mais importante é respeitar os limites do cavalo. Ao inocente, é importante salientar que o cavalo tem boa memória e associa as sensações a quem lida com ele. Se você exaurir ou cavalo toda vez que o monta ele vai associar você ao estresse e não vai estar disposto a ser montado e a colaborar. Você então passa a ter uma vítima e não um amigo. Aos demais, muito cuidado. Se a ânsia é por resultado, lembrem-se que um campeão se faz com calma e constância nos trabalhos. O corpo do cavalo tem que se adaptar aos poucos às exigências e, ainda assim, cada animal possui um limite. Se o desempenho do seu cavalo está abaixo das suas expectativas e não evolui, você deve repensar seu programa de treinamento, sob orientação profissional, ou buscar um animal com um potencial genético maior. Agora, se a ânsia é por dinheiro, vale lembrar que toda uma vida de investimentos em animal pode se esvair em um dia de treinamento mal feito. Treinar cavalos, levando-os além do limite é investimento de altíssimo risco e, quase sempre, fadado ao fracasso. Como vimos a mioglobinúria é um distúrbio que pode ser evitado, com manejo e tratamento corretos e, acima de tudo, respeito ao cavalo. Devemos ser responsáveis ao interferir no modo de vida de outros animais para que eles não nos temam e continuem dispostos a conviver e a trilhar conosco, os caminhos de sua existência.

Alexandre Archanjo Hospital Escola de Grandes Animais da Universidade de Brasília – UnB.
alex_archanjo@pop.com.br

Síndrome da Exaustão Eqüina

Exaustão é uma síndrome caracterizada por transtornos físicos e mentais, desencadeados por exercícios físicos intensos em condições de calor e umidade elevados, ocorrendo devido uma sobrecarga ou falha no sistema de termorregulação eqüina. Durante a atividade física, em condições de temperatura e umidade elevadas, a termorregulação fica comprometida e o organismo eqüino apresenta dificuldades para conseguir eliminar o calor gerado pela musculatura exercitada, acrescido do calor ambiente. Quanto maior forem a temperatura e a umidade ambiente, menor será a perda de calor. Dois mecanismos são utilizados pelo cavalo para promover a termorregulação:1 – Sudorese:A sudorese realizada pela pele, como no homem, trata-se do principal mecanismo. A eficiência da termorregulação eqüina através do suor dependerá da sua evaporação, a qual se tornará diminuída ou impedida se o ar estiver saturado de umidade.2- Ventilação: Durante a inspiração, parte do calor corpóreo é transmitido da mucosa do trato respiratório superior para o ar, que ao chegar aos alvéolos é saturado com vapor de água. Na expiração parte desse calor volta para a mucosa e ocorre uma porcentagem de condensação da água. A diferença entre o calor transferido para o ar inspirado e o calor transferido de volta para as mucosas é o resultado da perda de calor pelo trato respiratório. Quando corridas de cavalos, provas de enduro ou provas de fundo do Concurso Completo de Equitação são realizadas em climas extremamente quentes, aumentam concomitantemente as demandas de energia e irrigação sanguínea para a musculatura continuar a se exercitar, e para a pele promover a troca calórica. Para tanto, o sistema cardiovascular aumenta o seu trabalho, elevando a freqüência cardíaca e o volume sanguíneo ejetado pelo coração. Caso a perda de água e eletrólitos (sais orgânicos) através do suor for intensa, ou o cavalo apresentar-se levemente desidratado anterior a competição, o volume de sangue a ser movido pelo coração estará diminuído, a pressão arterial sofrerá queda e em resposta o coração irá trabalhar mais intensamente. Com a diminuição do volume sanguíneo, o fluxo para a pele estará diminuído, assim como a sudorese, prejudicando a termorregulação; além disso, menor quantidade de substratos energéticos chegarão à musculatura e ao sistema nervoso central podendo levar ao colapso e morte. Devido à deficiência na termorregulação, ocorrerá a hipertermia (aumento da temperatura corporal), a qual terá efeitos avassaladores sobre todos os tecidos orgânicos, principalmente, cérebro, coração, vasos sanguíneos, rins, fígado, pulmões e musculatura esquelética. O rápido reconhecimento e o tratamento da condição reduzem a severidade da síndrome de exaustão. Os animais afetados apresentam sinais de stress, fadiga significativa, desidratação, e elevação persistente da freqüência cardíaca e respiratória. Nos animais com bom condicionamento físico e boa função do sistema termorregulatório, após um período de repouso de 30 minutos, a freqüência cardíaca deve baixar para menos de 55 batimentos por minuto, a respiratória para 25 movimentos respiratórios por minuto e a temperatura corporal para menos de 39,5° C. Qualquer animal que apresente uma elevação significativa e persistente da freqüência cardíaca e respiratória, ou da temperatura retal, não deve continuar o exercício ao qual estava sendo submetido. Estes animais devem receber pequenas quantidades de água fresca, em intervalos freqüentes, e permitido o acesso a uma comida palatável, além disso, devem ser observados de perto até a sua completa recuperação. Cavalos que apresentarem uma elevação marcante da temperatura retal (maior que 40,5°C) devem ser resfriados o mais rápido possível. Banhos de mangueira com água fria sob a briza natural em um ambiente aberto auxiliam na perda de calor por convecção e evaporação. Atenção especial deve ser dada no resfriamento da cabeça, do pescoço e de grandes vasos subcutâneos entre os membros posteriores. Enemas com água fria e administração de fluidos via sonda nasogástrica também auxiliam na diminuição da temperatura corpórea. A fluidoterapia deve ser instituída imediatamente nos animais que apresentarem sinais severos ou que não responderem de forma efetiva ao tratamento conservador dentro de 30 minutos. O volume exato e a via de administração irão depender da severidade dos sinais clínicos. Na grande maioria das vezes a via de eleição é a intravenosa, e o volume a ser administrado pode ser superior a 50 litros de solução isotônica. Os animais afetados por síndrome de exaustão não devem ser transportados nas 12 a 24 horas subseqüentes, porque uma alta atividade muscular está associada ao transporte prolongado, o que aumenta os riscos do desenvolvimento de problemas pós-exaustão. Isto inclui problemas musculares severos, laminite (aguamento) e falência renal. Os riscos de um animal desenvolver síndrome de exaustão são reduzidos com uma preparação adequada e um manejo cuidadoso durante as competições, sempre levando em conta os efeitos das condições climáticas (umidade relativa do ar e temperatura ambiente) durante o evento.

Mauricio José Bittar é Médico Veterinário oficial da ABHIR (Associação Brasileira de Hipismo Rural)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Efeito Positivo da Equoterapia em Cegos

Um dos conceitos que define esse recurso terapêutico se refere a ele como um conjunto de técnicas reeducativas que atuam para superar danos sensoriais, cognitivos e comportamentais e que desenvolvem atividades lúdico-esportivas utilizando o cavalo” (Cittério, 1999). A equoterapia é um recurso terapêutico que pode ser aplicado as áreas de Saúde (portadores de necessidades especiais físicas, sensoriais e/ou mentais); Educação (indivíduos com necessidades educativas especiais) e Social (indivíduos com distúrbios evolutivos e/ou comportamentais). Os efeitos terapêuticos que podem ser alcançados com a equoterapia são de quatro ordens (Garrigue, 1999): • melhoramento da relação: considerando os aspectos da comunicação, do autocontrole, da autoconfiança, da vigilância da relação, da atenção e do tempo de atenção; • melhoramento da psicomotricidade: nos aspectos do tônus, da mobilidade das articulações da coluna e da bacia, do equilíbrio e da postura do tronco ereto, da obtenção da lateralidade, da percepção do esquema corporal, da coordenação e dissociação de movimentos, da precisão de gestos e integração do gesto para compreensão de uma ordem recebida ou por imitação; • melhoramento de natureza técnica: facilitando as diversas aprendizagens referentes aos cuidados com os cavalos e o aprendizado das técnicas de equitação; • melhoramento da socialização: facilitando a integração de indivíduos com danos cognitivos ou corporais com os demais praticantes e com a equipe multidisciplinar. A equoterapia exige a participação do corpo inteiro do praticante, contribuindo assim para o seu desenvolvimento global. Quando o cavalo se desloca ao passo, ocorre o movimento tridimensional do seu dorso; portanto, há deslocamentos segundo os três eixos conhecidos (x, y, z), ou seja, para cima e para baixo, para frente e para trás, para um lado e para outro. Tal movimento é transmitido ao cavaleiro pelo contato de seu corpo com o do animal, gerando movimentos mais complexos de rotação e translação.Os deficientes visuais constituem-se como o grupo que apresenta, talvez, as maiores e mais antigas preocupações, tanto para as ciências como para a filosofia. Filósofos têm teorizado sobre o fato de os olhos possuírem uma relação mística com a alma. A história nos relata sanções relacionadas à perfuração dos olhos como punição por crimes sexuais e sociais. Outros textos mostram os cegos reverenciados como adivinhos ou considerados como transmissores verbais das tradições e dos valores culturais. Até os dias atuais as atitudes para com os indivíduos cegos são diferenciadas e se revestem de benevolência social ou veneração pelo trabalho que realizam. Superstições e atitudes carregadas emocionalmente com freqüência estão associadas à cegueira. O público em geral considera a cegueira como a perda física mais limitadora que existe (Amiralian, 1997). A característica específica da cegueira é a qualidade de apreensão do mundo externo. As pessoas cegas precisam utilizar-se de meios não usuais para estabelecerem relações com o mundo dos objetos, das pessoas e das coisas que as cercam: essa condição imposta pela ausência de visão se traduz em um peculiar processo perceptivo, que se reflete na estruturação cognitiva e na organização e constituição do sujeito psicológico (Amiralian, 1997). O que não se pode desconhecer é que o deficiente visual tem uma dialética diferente, por causa do conteúdo que não é visual e da sua organização cuja especificidade é a de referir-se ao tátil, auditivo, olfativo, cinestésico. Dispor de todos os órgãos dos sentidos é diferente de contar com a ausência de um deles: muda o modo próprio de estar no mundo e de se relacionar (Mansini, 1994). O desenvolvimento humano se dá por meio de vivências e experiências que, no caso da criança cega, são mais restritos e limitados, o que pode acarretar uma lentidão e até mesmo dificuldades em seu processo de maturação. As crianças cegas congênitas constroem a imagem do mundo pelo uso efetivo dos outros sentidos, daí a necessidade de estimulação dessas estruturas sensoriais para compensar a ausência da visão e diminuir a defasagem psicomotora.
Implicações da equoterapia para o cego
Estimulação sensorial :Segundo Figueira (1996), o profissional, que tem como objetivo promover o desenvolvimento da criança cega, deve conhecer bem suas capacidades e seus potenciais, para explorá-los no decorrer do processo terapêutico. A criança cega não é capaz de se orientar, nem realizar adaptações em seu sistema muscular de acordo com as variações de posição, distância, tamanho e forma. Pela ausência da visão, as combinações autocorretivas de reforço mútuo entre a visão e as respostas motoras ficam muito comprometidas.Devemos lembrar que não existe substituição de um sentido por outro. O conjunto sensorial funciona em sinergismo, em que nenhum dos sentidos realiza suas funções de forma isolada, eles se retroalimentam. Nesse sentido todo o processo terapêutico deve promover uma ampla estimulação dos outros sentidos em conjunto.Nesse caso a equoterapia cumpre o seu papel terapêutico/educativo e de estimulação global do praticante cego, pois como diz Botelho (1999, p. 149):... a cada passo do cavalo o centro de gravidade do praticante é defletido da linha média, estimulando as reações de equilíbrio, que proporcionam a restauração do centro de gravidade dentro da base de sustentação. O sistema vestibular é assim repetidamente solicitado, estimulando continuamente suas conexões com o cerebelo, tálamo, córtex cerebral, medula espinhal e nervos periféricos. Por meio de inúmeras repetições do movimento do andar do cavalo, o mecanismo dos reflexos posturais e a noção de posição dos vários segmentos corporais no espaço são reeducados durante 30 minutos da sessão de equoterapia.Levando-se em consideração o local onde são realizadas as sessões de equoterapia, que por suas características naturais apresenta diversos estímulos auditivos e olfativos, além dos de comunicação que são proporcionados pela equipe multidisciplinar que realiza a intervenção, podemos considerar como um recurso que pode oferecer ao cego uma estimulação global e motivadora. Como diz Heimers (1970, p. 35):Os estímulos que vem de fora constituem um fator importante na vida dos videntes, e os cegos os desconhecem, por isto, devemos manter sempre alertas esses estímulos, devemos despertar o interesse da criança cega para que ela não caia no marasmo. O movimento ao ar livre, na natureza, traz consigo um mundo de ensinamentos e experiências.Reeducação postural :A coordenação e o ritmo de uma criança cega ao andar podem ser mais desordenados do que os de uma criança com visão. Se a criança cega não for encorajada a conduzir seu corpo de maneira adequada, pode ser que mantenha uma grande distância entre as pernas ao ficar ereta e desenvolva uma má postura e uma forma de andar incorreta. Um problema comum é o da criança que deixa cair a cabeça sobre o peito. A criança cega deve ser instada a manter a cabeça erguida, perpendicular em relação ao chão (Oliveira, 1996).A equoterapia vai ajudar na correção da postura, pois como diz Herzog (1989, p. 17):
... manter o equilíbrio significa, a principio, reconhecer uma atitude corporal pelo senso postural, depois reajustar sua posição. O cavaleiro deve coordenar seus próprios movimentos e dissociar os gestos dos braços e pernas. Ele é, portanto, conduzido a uma melhor compreensão de seu esquema corporal. Ele adquire, desde um primeiro contato, o domínio corporal, aprendizagem que, num primeiro momento, vai ser favorecida pelo terapeuta. É um trabalho que demanda concentração.Sabemos que o aprendizado das técnicas eqüestres exige que o cavaleiro mantenha uma colocação correta na sela, ou seja, manter o tempo todo uma postura adequada, o tronco ereto e a cabeça perpendicular em relação ao solo, além de ter que dissociar os movimentos de braços e pernas, para que acompanhe os movimentos tridimensionais do dorso do cavalo e possa realizar o manejo correto das rédeas.Durante as sessões de equoterapia, essas ações são desenvolvidas e estimuladas pelos terapeutas, fazendo com que o praticante realize o aprendizado correto da postura a cavalo. E como essas estimulações ocorrem por um período de 30 minutos, o número de informações proprioceptivas que provêm das regiões articulares, musculares, periarticulares e tendinosas são bastante diferentes das fornecidas quando estamos na posição de pé. As informações proprioceptivas dadas pelo passo do cavalo permitem a criação de esquemas motores novos: trata-se da reeducação neuromuscular.Relação com o outroPaschoal (citado por Araujo, 1997), ao falar de educação psicomotora para crianças cegas, diz que é necessário permitir que a criança cega, desde pequena, se utilize do contato físico na relação corpo a corpo. Num trabalho psicomotor é necessário que o adulto permita essa entrega de si, para que ela possa sentir que o outro se movimenta, gesticula e que ela também pode se movimentar, gesticular, se soltar, etc. O autor diz que há nesse ato uma tomada de consciência por parte da criança do potencial motriz do seu corpo, de uma forma muito natural, livre, na brincadeira, no jogo, no momento em que ela está mais aberta, pois está mais absorta.A equoterapia, como uma atividade que envolve a psicomotricidade, pode proporcionar à criança cega esse contato físico e de uma forma muito mais ampla, pois, desde o momento que o praticante cego chega ao local das sessões, ele é recebido pelos terapeutas e auxiliares e, enquanto aguarda sua vez, participa de jogos e brincadeiras, que permitem essa relação corpo a corpo. Quando está montado, esse contato físico passa a ser com o cavalo, que ele explora por meio dos outros sentidos, enquanto realiza os exercícios programados e o cavalo está ao passo.Os diversos movimentos que ocorrem numa sessão de equoterapia além de contribuírem para essa tomada de consciência de seu potencial motriz , ocorrem, geralmente, de uma forma bastante prazerosa . Estimulação para o desenvolvimento tátil Grifin e Gerber (1996, p. 15), em seu artigo Desenvolvimento tátil e suas Implicações na Educação de Crianças Cegas, ao se referirem ao desenvolvimento tátil de crianças cegas dizem que: ... a modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do mero sentido do tato: inclui também a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão. As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos ambientais sejam significativos. [...] A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a exploração do pleno desenvolvimento tátil.O programa por nós desenvolvido e aplicado no atendimento equoterápico de crianças cegas privilegiou a estimulação tátil, pois desde o primeiro momento em que chegam ao local de realização das sessões, as crianças são estimuladas a efetuar o reconhecimento da área, o que chamamos de ambientação, e é por meio da experiência tátil e dos outros sentidos que a realizam. Em seu primeiro contato com o animal, a criança, por meio da modalidade tátil poderá perceber sua forma, a textura do seu pelo, o calor de seu corpo, seus movimentos respiratórios, as diferenças dos pelos da crina e da cola, e aos poucos o reconhecimento dos equipamentos de montaria que serão utilizados durante as sessões. Esse procedimento é repetido em todas as sessões, para que a criança cega adquira o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo e também a consciência de qualidade tátil, importante para o seu desenvolvimento.Reforço e motivaçãoA esse respeito Figueira (1996, p. 8), diz o seguinte: ... em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento. Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada pelos pais. Se não há reforço e motivação esta criança será invadida por uma sensação de insegurança e medo. O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição feita. Na equoterapia, os praticantes são encorajados e reforçados pelos membros da equipe que estão realizando a intervenção e, a todo momento, a cada ação realizada, a cada insegurança vencida, são estimulados a continuarem. Todo esse trabalho é realizado de forma a tornar o tempo em que permanecem montados o mais agradável e prazeroso possível, além de aproveitar todos os momentos e situações para o desenvolvimento dos outros sentidos.Aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais .As crianças cegas devem ter a oportunidade de vivenciar experiências totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas também sua posição no espaço e no tempo, suas relações com a criança e com outros seres e objetos. Dessa forma ela vai se organizando, conhecendo e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências (Figueira, 1996). Nesse contexto o cavalo é um instrumento cinesioterapêutico, um ser vivente, dócil, que responde aos afetos que recebe, que tem vontade própria e que precisa ser dominado, para que o cavaleiro realize o manejo que desejar. Para Cittério (1999, p. 35): “A equoterapia poderá ser colocada num importante processo de aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais, no qual o indivíduo se tornará protagonista do momento reabilitador, um indivíduo ativo porque motivado pela relação com um outro ser vivente.” Herzog (1989) relata que o cavalo pode ser um instrumento de acesso entre a realidade do praticante e a do terapeuta, funcionando ainda como intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante e o mundo exterior. Assim, o cavalo proporciona ao praticante a criação de uma nova imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favorece a estruturação do eu. O deslocamento a cavalo, tendo pontos de referência (no nosso caso estímulos sonoros), exige a representação mental do gesto e do deslocamento. O praticante deve respeitar o animal, fazendo com que ele compreenda aquilo que ele, praticante, decidiu sozinho. Isso faz com que o praticante que não fazia isso na vida cotidiana, o faça com o cavalo, resultando em uma revolução própria.Estimulação motora
Figueira (1996), quando reporta à assistência fisioterápica à criança cega congênita, reafirma que a melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é por meio da estimulação motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço. A passividade impressa pela ausência da visão pode implicar alterações nas seguintes áreas: tônus muscular, postura, coordenação motora e psíquica, equilíbrio, orientação espacial, cinestésica e social. O recurso mais apropriado é a cinesioterapia por meio de exercícios passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento pode ser realizada pela estimulação auditiva, olfativa, gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando a desenvolver a consciência corporal, a coordenação motora, o equilíbrio, a correção postural, a marcha e a orientação no espaço. A respeito dos ganhos em nível neuromotor, da equoterapia, Cittério (1992) relata que estes se evidenciam sobre o alinhamento corporal (cabeça, tronco, quadril), controle das simetrias globais, equilíbrio estático e dinâmico e que em nível psicológico percebe-se a melhora na capacidade de orientação e de organização espacial e também na capacidade executiva. Na equoterapia o cavalo atua como agente cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino–aprendizagem e como agente de inserção e reinserção social. Cittério (1999) aborda o assunto, afirmando que não devemos nos esquecer da hipótese comportamentalista na qual se baseia a equoterapia, método considerado como condicionamento motor impresso no ritmo e no comando, também chamado de “pedagogia em movimento” ou ainda “ciência do movimento”, e outros autores o tratam como “sistema de vida”.
Carlos Henrique Silva: Mestre em Psicologia, Professor de Psicologia Experimental e Psicofísica, Membro da equipe do Programa de Equoterapia e do Núcleo de Estudos e Pesquisa Interdisciplinar em Trânsito e Transporte (NEPITT) da Universidade Católica Dom Bosco.
Sonia Grubits: PhD em Semiótica pela Paris 8 (Sourbonne), Doutora em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP, Coordenadora do Programa de Mestrado em Psicologia da UCDB.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Postura sobre o Cavalo e a Velocidade do Passo : a influencia na ativação dos músculos eretores lombares

O desenvolvimento motor normal é caracterizado pelas aquisições nos sentidos crânio-caudais e próximo-distais, ou seja, iniciando o ganho do controle postural pela musculatura cervical, seguida de tronco e pelve. O desenvolvimento próximo-distal se inicia pelas articulações mais próximas da linha média, para então as mais laterais. Segundo Kandel; Schwartz e Jessel (1997), os músculos axiais (tronco) e apendiculares (proximais) do homem são usados na manutenção do equilíbrio postural, enquanto os músculos distais são utilizados para atividades manipulatórias. A importância do controle postural e da manutenção do equilíbrio se dá pelo fato da necessidade destes para um bom desempenho nas atividades motoras finas, como preensão, alcance e escrita.Assim, segundo Medeiros e Dias (2002), o ato motor baseia-se em duas atividades: a desentir e perceber, e a de realizar movimentos. Estimulando os três sistemas sensoriais (sistema vestibular, sistema visual e sistema proprioceptivo), a equitação terapêutica facilitará o aprendizado motor, levando a mudanças na organização e número das conexões neurais, chamado de plasticidade neuronal.O sistema vestibular é estimulado a partir da movimentação da endolinfa. O aparelho vestibular é o órgão que detecta as sensações de equilíbrio, e é composto por um sistema de tubos e câmaras no labirinto ósseo. Dentro deste está o labirinto membranoso, que é composto pela cóclea, por três canais semicirculares e por duas grandes câmaras chamadas utrículo e sáculo, responsáveis pelo equilíbrio.Os três canais semicirculares são sensíveis às acelerações angulares (rotações). O utrículo e sáculo são sensíveis às acelerações lineares (translações e a gravidade). A combinação dos dois sistemas assegura a percepção de todas as acelerações possíveis. O processo de estimulação vestibular se inicia com o fundamento da semelhança da marcha humana com o andar do cavalo. É através do conhecido movimento tridimensional que o cavalo promove no corpo do indivíduo montado sobre seu dorso, que a musculatura do tronco é ativada, de maneira a impedir a queda pelas oscilações constantes. Quando sobre o cavalo, o indivíduo está exposto a estas oscilações de maneira bem peculiar. Partido do animal parado, e iniciando o seu deslocamento pela pata posterior direita, o membro seguinte a se deslocar será a pata anterior esquerda. Desta maneira, a pelve do cavaleiro recebe estes movimentos, desencadeando o processo de recrutamento muscular e ajuste tônico para evitar a queda. Movimentos verticais da garupa Baumann (1978) extraída de Uzun (2005) Movimentos átero-laterais da garupa Baumann (1978) extraída de Uzun (2005) Nos casos de lesões neurológicas, onde estas reações estarão comprometidas, o cavalo beneficia o aprendizado motor através da repetição dos movimentos oscilatórios da pelve e tronco. Sendo a hipoterapia uma técnica essencialmente direcionada à reabilitação, é voltada para pessoas portadoras de deficiência física e/ou mental.9 A escolha adequada do animal, ou seja, a freqüência do passo, é de suma importância para se obterem as respostas posturais adequadas para cada paciente. O animal que apresentar um número maior de passadas por minuto (antepistar) irá ativar os receptores proprioceptivos intrafusais, que só respondem a estímulos rápidos, como também os receptores articulares que respondem à pressão, gerando aumento do tônus, indicado para pacientes hipotônicos. Em contrapartida, quando o cavalo apresentar uma freqüência baixa de passos (transpistar), diminuirá a velocidade de inputs dos estímulos proprioceptivos, mantendo o movimento rítmico e cadenciado, estimulando assim o sistema vestibular de forma lenta, contribuindo para diminuição do tônus muscular de todo o corpo, sendo indicados principalmente para pacientes hipertônicos. Para melhor análise das atividades musculares realizadas durante estas terapias, observamos inicialmente indivíduos sem alterações neurológicas, analisando assim apenas variações de recrutamento muscular, sem possíveis interferências de espasmos musculares ou desvios posturais . Participaram deste estudo 9 sujeitos, com idades entre 20 a 25 anos, sexo feminino, sem alterações motoras. O critério de inclusão no estudo foi apresentar bom estado geral, sem dores ou alterações posturais. A montaria foi realizada em uma égua de 13 anos, sem raça definida. O espaço utilizado foi um picadeiro de 20 X 60 metros, solo de areia.Para análise quantitativa dos resultados, foram utilizados aparelho de eletromiografia de superfície da marca MIOTEC® e software Myography® com 4 canais. Para a montaria, foi utilizada manta de atendimento, tipo “galope”, sem alças ou estribos. A coleta era iniciada com a colocação de eletrodos circulares pré-geldados de cloreto de prata Medtrace®, espaçados 2.5cm entre eles, sendo posicionados no ponto motor dos músculos eretores lombares, de acordo com a técnica sugerida por Cram et al. (1998). Os sujeitos foram observados primeiramente no solo, para então montarem no cavalo. Todas as posturas foram coletadas no mesmo dia, sendo que a ordem da coleta foi, respectivamente: com o cavalo ao passo, no qual o sujeito se encontrava montado com o corpo direcionado para a frente, sempre tendo como referência a cabeça do cavalo, e de costas à cabeça do cavalo – dorsal. Com o cavalo ao passo rápido foram coletadas as mesmas posturas, num percurso linear de 20 metros. Durante este período os sujeitos se mantiveram por todo o tempo se sustentando sozinhos, sem auxílio de qualquer terapeuta, porém ao lado havia dois terapeutas, para a segurança do paciente, e um condutor para o cavalo. Freqüência do cavalo transpistar (Medeiros, Dias, 2002) Para coleta dos dados, foi utilizado notebook conectado ao aparelho eletromiográfico, sobre um suporte estável, porém móvel, que se manteve acompanhando lateralmente o cavalo durante as coletas. Para análise dos dados foi considerada a média do recrutamento muscular em cada tarefa.O estudo foi baseado na análise dos dados obtidos do resultado da eletromiografia. A análise estatística utilizada foi o Teste de Wilcoxon, que possui nível de significância de 0,05 (5%).Analisando os dados obtidos, comparamos as seguintes posturas, iniciando pelos resultados da comparação dos movimentos para a posição frontal: Concluímos que existe diferença média estatisticamente significativa entre as velocidades para a posição Frontal somente nos valores de média, onde inclusive, a média da velocidade rápida é de fato maior que a média da velocidade lenta. Para pico não foi encontrada diferença significante entre as velocidades. Continuaremos comparando as velocidades, mas agora para a posição de dorsal.

Média Pico
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004

Para a posição de dorsal, concluímos que existe diferença significante entre as velocidades, tanto para a média quanto para o pico. Averiguamos ainda que em ambas as situações a maior média se encontra sempre na velocidade rápida.


Média Pico
Frontal Frontal Frontal Frontal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 30,00 38,00 57,11 67,44
Mediana 25,5 28,5 47 65,5
Desvio Padrão 21,40 24,70 39,20 31,12
Limite Inferior 20,11 26,59 39,00 53,07
Limite Superior 39,89 49,41 75,22 81,82
p-valor 0,009 0,107


Concluímos que existe diferença média estatisticamente significativa entre as velocidades para a posição Frontal somente nos valores de média, onde inclusive, a média da velocidade rápida é de fato maior que a média da velocidade lenta. Para pico não foi encontrada diferença significante entre as velocidades.Continuaremos comparando as velocidades, mas agora para a posição de dorsal.


Média Pico
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004


Para a posição de dorsal, concluímos que existe diferença significante entre as velocidades, tanto para a média quanto para o pico. Averiguamos ainda que em ambas as situações a maior média se encontra sempre na velocidade rápida.Continuando, vamos comparar a posição frontal versus dorsal para o passo rápido:

Média Pico
Frontal Frontal Frontal Frontal
Rápido Rápido Rápido Rápido
Média 38,00 77,22 67,44 142,44
Mediana 28,5 56 65,5 85,5
Desvio Padrão 24,70 61,31 31,12 120,77
Limite Inferior 26,59 48,90 53,07 86,65
Limite Superior 49,41 105,54 81,82 198,24
p-valor 0,002 0,006

Averiguamos que, também para o movimento rápido, existe diferença entre as posições que são consideradas estatisticamente significantes, tanto em média quanto em pico. Verificamos ainda que a média da posição dorsal é sempre a maior que a média da posição frontal.O presente estudo foi realizado apenas em indivíduos sem comprometimento motor, com o intuito de excluir possíveis interferências de tônus ou alterações de equilíbrio. A análise comparativa foi realizada através de testes estatísticos individuais, ou seja, a variação do recrutamento muscular foi vista de acordo com os dados do indivíduo com ele mesmo, para então serem pareados com os demais.Com isto, pudemos observar a interferência direta da velocidade da andadura do cavalo no grau de recrutamento muscular, como também a mudança de postura variandosignificativamente o recrutamento muscular. A variação do passo no cavalo, velocidade, estimulação da direção e equilíbrio têm comoresposta o deslocamento do centro de gravidade do paciente, facilitando na dinâmica daestabilização postural e restabelecimento da desordem motora.1,4,7,8 Portanto, é necessário que o paciente aumente o recrutamento muscular para manter-se sobre o cavalo, o que se pôde observar na diferença de ativação da musculatura analisada deste em quaisquer das posturas, em comparação tanto com o cavalo no passo lento, como deslocando-se em maior velocidade – sempre mantendo a andadura ao passo. O sistema nervoso central interpreta estes desequilíbrios como instabilidades posturais capazes de provocar queda, respondendo com aumento do tônus postural. Assim, os eretores da coluna são ativados como forma de manter suas reações de equilíbrio. Gusman e Torre (1998) definem que as reações de equilíbrio servem para ajustar a postura, manter e recuperar o equilíbrio antes, durante e depois do deslocamento do seu centro de gravidade. O estudo da atividade muscular durante os movimentos do passo do cavalo é de suma importância para o fisioterapeuta, podendo este, a partir destes dados, realizar as mudanças posturais de forma mais direcionada a cada paciente. Com os resultados obtidos, pudemos concluir que a postura dorsal solicitou sempre maior ativação muscular dos eretores lombares, conseqüentemente, é a postura que irá trabalhar com maior intensidade o controle do tronco. Na prática clínica nos deparamos com alguns pacientes que apresentam limitações articulares, decorrentes de espasticidade severa, encurtamentos musculares, e outras complicações. Estas limitações muitas vezes impedem as mudanças posturais que poderiam ser realizadas numa sessão de hipoterapia. Com isto, o trabalho baseado na velocidade do passo do cavalo tornase essencial para o direcionamento do ganho motor desejado a determinados pacientes. Vimos neste estudo que o recrutamento muscular variou significativamente nas mudanças da velocidade do passo do cavalo, o que na prática significa que, mesmo sem alterar a postura sentada no cavalo, podemos recrutar de diferentes formas e intensidades a musculatura do tronco, variando assim a intensidade do trabalho postural, sem precisar deslocar o paciente sobre o cavalo. Com isto, sugerem-se futuros estudos aplicados a patologias diversas, traçando assim a conduta terapêutica mais adequada para cada patologia tratada.

Autora: Rebeca de Barros Santos Co-autores: Fábio Navarro Cyrillo,Mayari Ticiani Sakakura,Adriana Pagni Perdigão,Camila Torriani

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Milagre da Neurofisiologia da Equitação


"Quando o homem e o cavalo, para realizarem tarefas conjuntas, se fundem numa única unidade biológica forma-se uma rede de cooperação neurofisiológica entre os parceiros. Esta interação entre os sistemas nervosos do Homo e do Equus ocorre, nas diversas modalidades eqüestres, em graus diferentes, e esta variação determina a dificuldade e a qualidade da equitação. Podemos afirmar que a equitação é um milagre de coincidências biológicas que, à primeira vista, o bom senso julgaria impossível de acontecer - isto porque só um milagre permitiria que dois seres programados pela natureza para a realização de tarefas vitais tão diferentes pudessem unir os seus complexos recursos fisiológicos para realizar uma mesma tarefa - e com o alto grau de eficiência verificada em algumas modalidades eqüestres."
A cooperação funcional entre homens e animais não é em si uma novidade. Desde a Antigüidade, o homem buscou entre os animais aqueles que pudessem lhe ajudar a sobreviver e até a enriquecer. Na Índia, o elefante faz, há milênios, o trabalho do guindaste hoje. Em todas as sociedades agrárias o boi puxa arados, o jumento transporta carga e, entre os povos nômades, o cavalo, a rena e o camelo, servem para o deslocamento de carga e como transporte individual. Todas estas tarefas exigem algum grau de cooperação funcional entre o homem e o animal. O que diferencia a equitação de todos os outros usos de animais - e até do uso do cavalo para tração - é a fusão neurofisiológica necessária para que o conjunto eqüestre se funda em um único ser biológico para operar ações conjuntas na guerra, nos trabalhos e nos esportes. Mas o homem e o cavalo possuem diferenças morfológicas tão acentuadas que, à primeira vista, a equitação seria um fenômeno inacreditável. A impossibilidade teórica da equitação foi confirmada em todas as ocasiões em que povos pedestres se chocaram pela primeira vez com povos eqüestres. Os pedestres viam os eqüestres com a mesma incredulidade com que você veria um hipopótamo pilotado por um chimpanzé ganhando o Grande Prêmio Brasil no Jockey. Entretanto, se olharmos o fenômeno da equitação com muita atenção, podemos distinguir onde e como a maioria das características anatômicas e neurofisiológicas das espécies Homo sapiens e Equus caballus se completam para formar o fenômeno Homo-caballus. Se a diferença entre as duas espécies é grande, as coincidências são maiores ainda! Em homenagem ao inventor da equitação, o Homo sapiens, vamos examinar primeiramente quais as suas características morfológicas e neurológicas que favorecem a equitação. Sabemos que o corpo do Homo é dividido em cabeça, tronco e membros, exatamente como o do cavalo. Mas existe uma relação de flexibilidade muito especial entre as partes do corpo humano que não existe no cavalo. O Homem evoluiu basicamente para se locomover na copa das árvores. Sim, fomos programados para braquear, isto é, para nos deslocarmos de galho em galho nos impulsionando com os braços e usando as pernas para dar mais empuxo e firmeza nos saltos aéreos. O antecessor do Homo era o 'saltimbanco da floresta', um verdadeiro 'acrobata do cipó'. A contribuição sensorimotora do homem na equitação é o seu grande senso de equilíbrio, a capacidade de usar os braços independentemente das pernas, uma postura de tronco ereto que permite deslocar o centro de gravidade para frente e para trás conforme a velocidade do cavalo, um grande número de sensores nervosos e músculos especializados que permitem excelente coordenação, entre olhos e mãos, para o manuseio de objetos. Esta habilidade manipuladora é boa e ruim. Muitos 'macacos pelados' não conseguem desenvolver uma boa equitação porque a sua compulsão manual destrói o delicado equilíbrio sensorimotor necessário para a grande performance eqüestre. Para equitar bem, o Homem tem que descartar os seus movimentos amplos e usar apenas os movimentos finos. (Quebrar pedras é mais fácil do que lapidar diamantes, é claro). Mas, do ponto de vista neurológico, o Homem desenvolveu um órgão fundamental que possibilita todo o milagre da equitação - um cérebro capaz de estabelecer enormes seqüências de relações entre os fenômenos naturais e que transformou a espécie humana numa máquina de aprender. Perceba, portanto, que o bom equitador se notabiliza primeiramente pela sua capacidade de aprender com o cavalo e não pela sua capacidade de ensinar ao cavalo - uma questão que obviamente tem atrapalhado muitos candidatos a cavaleiro, porque as pessoas imaginam caber a eles ensinar o cavalo a ser cavalo. O Homem, através de milhões de anos, a maioria deles de vida arbórea, desenvolveu uma série de reflexos incondicionados, isto é, involuntários, que foram passados de geração a geração e hoje representam o grande elenco de movimentos humanos. Outros reflexos são condicionados por estímulos do meio ambiente e são desenvolvidos no processo de aprendizado do indivíduo. Na equitação, estes dois tipos de reflexo - o condicionado e o incondicionado - vão interagir com os reflexos naturais do cavalo. (Veja o capítulo A Cadeia de Reflexos da Equitação). Os movimentos e as ações da equitação são iniciados pelo sistema sensorimotor do cavaleiro e completados pelo sistema sensorimotor do cavalo. Isto é, são deflagrados pelo cérebro do Homem e finalizados pelo sistema nervoso do cavalo. Vejamos agora a morfologia funcional do cavalo. O cavalo é um animal com grandes diferenças funcionais e morfológicas, se comparado com o homem. Como já vimos, a cabeça, o pescoço, o tronco e o aparelho locomotor do cavalo foram planejados para desenvolver grande velocidade em qualquer terreno. O seu esqueleto, com uma construção semelhante ao do homem é, no entanto, horizontal para se tornar mais aerodinâmico. Mas o cavalo não tem a mesma agilidade do homem. "Existe uma crença comum que o cavalo é um saltador natural com um corpo flexível capaz de manter o seu equilíbrio em todos os andamentos e velocidades", escreve R. H. Smythe em seu livro A Estrutura e o Movimento do Cavalo. "A realidade é muito diferente. Comparando com todos os animais atletas o cavalo foi provido por um tronco de grande volume e peso que depende exclusivamente das pernas para se deslocar sobre o terreno, que funciona (negativamente) como um lastro. O equilíbrio do cavalo depende de pés com um diâmetro pequeno, muitas vezes tornados mais precários com o uso de ferraduras. Esses quatro pés tem de suportar e equilibrar o cavalo na reta, subindo e descendo, ao aterrizar depois de um salto e como freio para desacelerar a sua velocidade. Nas curvas, ele tem de manter o equilíbrio, às vezes em grande velocidade, e suportar as interferências que normalmente ocorrem em competições. Uma análise mais atenta poderia sugerir que esta espécie animal não é recomendada para todas estas tarefas. Entretanto, sejam quais forem as suas limitações, o cavalo hoje consegue desincumbi-las muito bem", conclui Smythe. Note que a análise de R. H. Smythe é inteiramente mecanicista - isto é, do ponto de vista da sua mecânica o cavalo é inadequado para a equitação! O que supera esta aparente limitação mecânica é o seu sofisticado sistema nervoso, que Smythe não menciona. Donde se conclui que, como no caso do Homem, a mais importante contribuição do cavalo para a equitação é o seu sistema nervoso. O velho adágio 'No foot no horse', muito popular no passado deve ser rescrito para 'No brain no horse', muito mais de acordo com a realidade eqüestre da Era Digital. Encontramos também na conformação do cavalo algumas coincidências que favorecem a ajuste com a morfologia do homem. Um costado com a largura adequada para Homo abraçar com as pernas, um lugar para o cavaleiro se posicionar sobre o dorso, no final da cernelha, ideal para o alinhamento do seu centro de gravidade com o do cavalo. O corpo relativamente inflexível do Equus caballus é, no entanto, um dos principais elementos a favorecer a equitação. Se o cavalo tivesse um dorso flexível como o de um gato, seria impossível de ser equitado. Se tivesse a pele solta como a do cachorro, também. As coincidências psicomotoras também são notáveis. Se o cavalo fosse carnívoro e tivesse um sistema nervoso com os reflexos rápidos de um gato ele seria impossível de ser montado. A coincidência de temperamentos é outro fator que permite a fusão neurofisiológica do conjunto. O grande elenco de movimentos naturais do cavalo é inteiramente utilizado na equitação moderna e totalmente administrável pelo homem treinado para a equitação. No aspecto psicológico existem também as semelhanças necessárias para completar o milagre da equitação. Sentimentos como o medo, o prazer, a confiança, a curiosidade e a determinação fazem parte da psicologia tanto do Homo quanto do Equus e também são responsáveis para o sucesso da fusão psiconeurofisiológica da equitação. E, talvez, campos magnéticos e outras 'ondas' elétricas ainda desconhecidas pela ciência possam também ser responsáveis pelo sincronismo de movimentos e o senso simultâneo de direção e velocidade verificado nos grandes conjuntos eqüestres. O século 21 provavelmente nos dirá. Depois de uma análise, mesmo rápida, da neurofisiologia do homem e do cavalo pode se concluir que o 'saltimbanco da floresta' e o 'corredor da savana' são os únicos seres vivos capazes de se unir para formar um terceiro organismo mais eficiente do que os dois indivíduos que o formaram. Isto é, quando o instinto de independência do cavalo e instinto de interferência do homem não entrarem em choque para as tomadas de decisão durante a equitação.
"A equitação de alta performance é provavelmente uma das tecnologias biológicas mais complexas já dominadas pelo homem. A capacidade de interagir com o complexo sistema nervoso do cavalo, que produz um processo de feedback entre os parceiros, exige do equitador respostas reflexas instantâneas aos reflexos incessantes produzidos pelo cavalo. Administrar as ações de um cérebro estruturado para mobilizar um organismo muitas vezes mais potente do que a do homem, é um enorme desafio para os 10 bilhões de células nervosas que compõem o tronco cerebral, o cerebelo e o cérebro do Homo sapiens. Felizmente, a neurociência já começa a nos fornecer dados reveladores para analisarmos os princípios da equitação."
Bjarke Rink - Desvendando O Enigma do Centauro - Parte II
http://www.desempenho.esp.br/livro/get_capitulo.cfm?id=82

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Importância da Psicologia do Esporte na Equitação

Introdução : Os primeiros momentos que antecedem qualquer competição esportiva são o bastante para fazer o coração de qualquer atleta bater mais forte. A ansiedade é um estado emocional negativo com sentimentos de nervosismo, preocupação e apreensão São vários os fatores que influenciam na ansiedade e na tensão competitiva que foram observados e estudados neste trabalho. Alguns sinais como batimentos cardíacos alterados, respiração, mãos frias e úmidas, necessidade de urinar freqüentemente, sudorese, diálogo interior negativo, olhar aturdido, tensão muscular aumentada, estomago embrulhado, indisposição, dor de cabeça , alguns destes sintomas foram observados no dia da competição.Quais os motivos que desencadeiam este estado emocional e como o psicólogo do esporte poderá atuar neste esporte.Metodologia : Os métodos utilizados foram de observação, questionamento e investigação de alguns dos meios externos relacionados à postura dos iniciantes. Foram feitas pesquisas de campo por meio de acompanhamento de seis indivíduos com idade entre 10 e 13 anos,cinco do sexo feminino e um do masculino que iriam competir em uma prova hípica pela primeira vez e tinham no mínimo um mês de experiência na escola de equitação. Este grupo foi observado no treinamento e nas competições hípicas. Foram feitas entrevistas com os pais, instrutores e com os próprios atletas.Para medir a freqüência cardíaca do grupo foram utilizados monitores marca(POLAR A3 )foram medidos em repouso, em treinamento e na competição. Ainda foi procedida pesquisa bibliográfica, uma vez que o assunto tem pouquíssimo material disponível no que se refere a psicologia do esporte aplicada a equitação. Resultados : Na observação realizada medindo a frequência cardíaca das crianças no paddock (logo antes de entrarem na pista de competição) e na avaliação através de observação dos sintomas gerais de ansiedade, pudemos perceber que ao montar para participar de uma prova o nível de ansiedade dos pesquisados já estava alterado.Os resultados de todos os pesquisados demonstrou em média um aumento de 30bpm(batimentos por minuto)da freqüência cardíaca de repouso para a freqüência no paddock, e de 70bpm para a freqüência cardíaca ao terminar a prova. Por conta dos questionários e observações e nos treinos e mesmo nas prova, verificamos ainda que os pais têm um papel muito grande no desempenho de seus filhos. Talvez mais do que os instrutores. Suas atitudes e comportamentos têm efeitos muito importantes, tanto positiva como negativamente. Portanto, segundo (Weiberg e Gold), a participação bem sucedida dos pais no esporte pode ser difícil, mas vale a pena. Foi extremamente eloqüente o resultado de nossa observação, onde o sujeito que tinha os pais de perfil psicológico mais calmo, sem demonstrar nervosismo, preocupação excessiva e ansiedade , apresentou os melhores resultados entre as crianças observadas, enquanto que o sujeito que tinha os pais com maiores alterações teve a pior performance entre todos os pesquisados. Em treinamento e competição, todos os cavaleiros estão sujeitos a ansiedade e stress, e possivelmente aqueles que melhor sabem lidar com isto são aqueles que conseguem as melhores classificações. Portanto a Psicologia do Esporte torna-se praticável na Equitação a partir do momento que poderá criar para os cavaleiros numerosas oportunidades para mudar seus antigos hábitos e atitudes, de perceber o que compromete sua performance ou o divertimento no esporte. Oferece aos cavaleiros uma variedade de formas que irão melhorar sua confiança, competência e auto-controle. Pode-se trabalhar individualmente cada cavaleiro, treinador e seus pais e criar rotinas individuais para cada um deles dentro de suas necessidades. A Psicologia do Esporte poderá ajudar no controle do temperamento das pessoas quando intenso demais e ensinar os praticantes a se divertirem. Se divertir no processo de montar em
vez de se preocupar exclusivamente em ganhar, pois a preocupação em ganhar interfere com o prazer de montar. Os pais devem entender que o mais importante ao iniciar seus filhos na vida esportiva – em qualquer esporte que seja - é saber o bem que isso pode fazer à criança em um todo, independentemente de vitórias ou troféus. Além disso, a prática de esportes desde a infância traz benefícios para toda a vida e ensina a criança que o resultado só depende dela. Elas aprendem a lidar de frente com as alegrias e decepções que podem acontecer a cada competição. O esporte é uma fonte rica em relacionamentos e ótimo para a saúde física e mental. Na Equitação, além do cavalo e cavaleiro, muitas pessoas estão envolvidas em uma competição: amigos, familiares, treinadores, público etc., o que acaba gerando um alto nível de expectativa ao redor do competidor. A expectativa de obter o reconhecimento pela sua equitação, a tentativa de agradar e formar opiniões positivas, a expectativa de ganhar a prova ou mesmo a expectativa de cair do cavalo. O cavaleiro mal treinado, pouco confiante, com pais ansiosos e com pouca interação com seu treinador terá certamente sua performance afetada e a cada resultado negativo a expectativa e a pressão serão maiores, gerando um efeito “bola de neve” que poderá acabar culminando com a desistência do esporte. Discussões e Conclusões :Pudemos concluir que através de experiências esportivas positivas como a auto-percepção, a motivação, o prazer na atividade, atitudes positivas em prol dos valores da atividade física per si, capacidade de lidar com a ansiedade, e atitudes esportivas formam o âmago das características que supre as justificativas do esporte competitivo (Wiggins,1987). Pude concluir que as crianças entram no esporte para divertir-se e a partir do momento que se iniciam nas competições um dos fatores que mais influência no aumento de seu nível de ansiedade são as manifestações das pessoas que estão ao seu redor, suas atitudes e comportamentos irão interferir de maneira intensa no esporte. Temos que ter em mente que diversão mais prazer geram resultados satisfatórios.As escolas de equitação muito podem fazer para contribuir para a iniciação esportiva destas crianças trabalhando em conjunto com profissionais da área de psicologia do esporte e os mesmos atuando como consultores na prática da equitação, trabalhando em conjunto com instrutores e todos os envolvidos no esporte.
Busato, A.¹, Catenaci, U.², Culpi, F. S. ³; .Furquim, S. 4
1 Orientador do Projeto
2 Acadêmico do Curso de Ciências Eqüinas
3 Co-orientador
4 Colaborador
Curso de Ciências Eqüinas Pontifícia Universidade Católica do Paraná

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fundamentos da Psicologia do Esporte aplicados ao Hipismo

Assim como outros animais, o cavalo teve seu processo evolutivo ligado à necessidade de adaptação para sobrevivência em seu meio. Seus caracteres físicos e padrões comportamentais o definem historicamente como “animal presa”. Seus tradicionais predadores são os carnívoros de grande porte de diferentes espécies. Seus órgãos dos sentidos especializaram-se na detecção de sinais de proximidade do inimigo e seu aparelho locomotor adquiriu excepcional mecânica para desenvolvimento de velocidade, tipificando-o como animal “fugidio”. A compreensão do funcionamento desses sistemas é fundamental para o alcance de bons resultados nas competições de hipismo. Assim, preferindo a fuga ao confronto com o inimigo, os eqüinos têm, na visão, no olfato e na audição, seus principais, rápidos e eficientes meios de percepção do perigo, responsáveis pelo acionamento de seus mecanismos de defesa (morder,manotear ou coicear e/ou fugir). A visão do cavalo é peculiar e seu primário detector de ameaças. O formato dos olhos, a distância entre eles e sua localização, o permitem enxergar de duas formas diferentes, a monocular e a binocular, abrangendo um campo de visão de quase 360 graus na horizontal (com uma área de visão nula atrás e um ponto cego imediatamente à frente dos olhos) e 180 graus na vertical. A despeito dessa amplitude, não conseguem enxergar com nitidez em todas as direções e distâncias, mas são extremamente sensíveis a variações e movimentos muitas vezes não perceptíveis ao homem, assustando-se com facilidade. Na busca de melhor ângulo visual, movimenta a cabeça para ajustar o foco, que é muito prejudicado em distâncias inferiores a 1.20m-1.30m (elevando a cabeça para ver objetos próximos e abaixando para enxergar objetos distantes).Com relação ao olfato dos eqüinos, sabe-se que seu tecido epitelial abrange área superior a 100 vezes a média do mesmo tecido encontrada nos humanos. Sua grande sensibilidade é usada para localizar e selecionar alimentos, para identificarem-se uns aos outros, bem como na percepção da hostilidade ou amigabilidade de outras espécies. Cavalos parecem, em geral, distinguir com facilidade feronômios e odores considerados ameaçadores em geral (como adrenalina, por exemplo), o que normalmente os deixa excitados e difíceis de controlar. O sentido da audição nos cavalos é particularmente bem desenvolvido e os auxilia tanto na detecção de predadores como na comunicação com membros do rebanho. É também uma excelente ferramenta para auxiliar no processo de treinamento do cavalo-atleta. Suas orelhas, localizadas no alto da cabeça,movem-se em quase todas as direções, permitindo-os dirigi-las diretamente à fonte emissora de sons. A detecção de ruídos não familiares, em geral pode amedrontá-los e produzir reações de fuga ou aparente rebeldia.Pesquisas desenvolvidas na Univers. de Nevada (Reno - USA) concluíram que o sistema auditivo nos eqüinos é mais sensível a sons de alta freqüência, enquanto Burton F. (em Ultimate Horse Care, publicado por Ringpress Books, 1999) acrescenta que nas freqüências médias (entre 2KHz e 4KHz) a capacidade de discriminação de variações em tons e alturas é otimizada. É também de capital importância na prática dos esportes hípicos, oconhecimento de alguns aspectos da percepção tátil dos cavalos, uma vez que, nas competições, o principal meio de comunicação usado pelos cavaleiros é a transmissão de sinais através de suas pernas, mãos e assento. Esses sinais são chamados de “ajudas” e, utilizados corretamente, podem fazer o animal mover-se nos três andamentos básicos (passo, trote e galope), parar, mudar de direção, saltar obstáculos e executar exercícios atléticos em geral, da mesma forma que seu uso inadequado possivelmente gera reações negativas, movimentos não desejados, desequilíbrio, perda de sensibilidade e, inevitáveis penalizações nos concursos.Outra relevante característica comportamental dos cavalos é sua alta sociabilidade , visto que, originalmente, viviam em ebanhos com dominação hierárquica claramente estabelecida. Animais submissos em sua maioria,parecem aceitar facilmente o homem como seu líder, desde que este o trate com respeito e lhe transmita confiança.

Interações Psicológicas entre Cavalo e Cavaleiro

Os principais estudos sobre aprendizagem e adestramento de animais da espécie eqüina baseiam-se em teorias de “reforço-estímulo-resposta” (tentativa e erro). Embora a grande maioria dos treinadores e cavaleiros continue aplicando predominanantemente reforços negativos (chicote, esporas, embocaduras) para alcançar seus objetivos atléticos, as pesquisas apontam para a maior eficiência da prática da recompensa (ou reforço positivo) pelas respostas corretas. Ignorar respostas não desejadas também conduz a melhores resultados do que aplicar punições, visto que estas geram desconfiança e medo.Tais procedimentos, normalmente levam à diminuição dos erros e até à sua quase extinção. Dada a dificuldade de utilização dos chamados reforços positivos primários durante o cavalgar, pode-se aplicar técnicas de associaçãodestes com estímulos tácteis ou verbais (por exemplo, repetir determinado som ao alimentar o animal). Os reforços devem ser aplicados durante ou imediatamente após a ocorrência da resposta desejada (um bom salto, por exemplo), caso contrário o estímulo poderá reforçar a atitude seguinte (por exemplo, o descanso após um percurso de saltos bem sucedido). Por essa razão a utilização da “gratificação sonora” é, geralmente, mais viável do que a táctil (o tradicional tapinha no pescoço). Deve-se também observar que a freqüência variável de administração de reforços mostra-se mais eficiente que a sua aplicação continuada. Por outro lado, o grau de dificuldade dos exercícios propostos deve ser progressivo e parcimonioso, a fim de não gerar grande incidência de respostas negativas nem provocar acidentes, o que geralmente induz o animal à perda confiança e o conseqüente descrédito do treinador ou cavaleiro como seu “líder”. Outra prática bastante comum que deve ser evitada é a de realizar sessões únicas diárias de treinamento de longa duração, pois a freqüência de boas respostas diminui proporcionalmente ao aparecimento de sinais de cansaço do animal (e também do cavaleiro), assim como longos períodos de permanência em confinamento (na cocheira, por exemplo) levam ao desenvolvimento de taras e vícios indesejáveis (coicear as paredes, morder e “engolir ar”, manotear o chão, por exemplo).Com relação ao cavaleiro e/ou treinador, há alguns aspectos relevantes a considerar: As chamadas “ajudas”, de mãos, pernas e assento são os principais meios de comunicação com o cavalo e devem ser claras, precisas, consistentes e transmitir propostas de execução viável, para não gerar dúvidas, insegurança ou reações adversas;Ao aplicar tais “ajudas”, o cavaleiro freqüentemente provoca desconfortos (ou até dor e ferimentos) nos sensíveis pontos de contacto com o cavalo, especialmente a boca e os flancos, logo, estas devem ter a intensidade apenas necessária para produzir o efeito desejado e aliviadas imediatamente após, a fim de produzir o efeito de reforço positivo da atitude do animal e levá-lo ao entendimento da tarefa; A ansiedade e as tensões do cavaleiro são imediatamente percebidas pelo cavalo através do olfato (a descarga de adrenalina, por exemplo, o faz sentir-se na iminência de ataque) e do tato (a rigidez da parte superior do tronco passa pelos braços e mãos do cavaleiro e atinge a boca do cavalo, bem como a instabilidade das pernas faz com que as esporas agridam seus flancos), transmitindo-lhe intranqüilidade e medo; Por ocasião de concursos, com o incremento da tensão do cavaleiro (pela situação de competição) e do cavalo (pela presença de elementos estranhos ao seu “rebanho”, ocorrência de ruídos e alterações no campo visual), maximizam-se os efeitos negativos (que interagem entre cavalo e cavaleiro), com conseqüente e significativa queda no desempenho do conjunto. O desempenho dos conjuntos cavaleiro/cavalo nos esportes hípicos depende da compreensão de múltiplos fatores que vão muito além das características biomecânicas específicas de cada modalidade, entre os quais destaca-se a íntima relação psicológica entre dois atletas de diferentes constituições físicas e mentais, empenhados num mesmo objetivo, dirigidos porém, pela vontade de apenas um deles; Ainda pouco utilizada no meio hípico, a Psicologia do Esporte pode ser de grande utilidade no aprimoramento qualitativo do relacionamento cavaleiro/cavalo, seguindo-se o tão desejado aumento do rendimento em competições; As técnicas de treinamento de habilidades psicológicas mais recomendadas para atletas de hipismo são as de controle de respiração e de relaxamento progressivo (para redução de ansiedade) e as de mentalização (para controle de adversidades e melhora de concentração), enquanto para cavalos com distúrbios comportamentais, utiliza-se com sucesso técnicas de dessenssibilização pós-traumática;A abordagem do especialista em Psicologia do Esporte pode ser feita de forma direta ou através do treinador, mas deve sempre considerar o conjunto cavaleiro-cavalo, as peculiaridades de cada um e as relações entre eles. Os instrutores devem considerar, ainda, as técnicas de “feedback” positivo, ao se relacionar com alunos cavaleiros.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Jogo de Polo na Equoterapia

O polo é um esporte no qual quatro jogadores por equipe montados em cavalos e golpeando um bola com um taco, tentam marcar o máximo de gols possíveis no arco da equipe rival. Os jogos são disputados em quatro tempos de sete minutos e meio, denominados chukkas.O principal objetivo do polo é conseguir marcar o maior número de gols em comparação ao seu adversário, acertando uma bola de 8 centímetros de diâmetro com um taco de 3 metros de comprimento, e fazendo-a entrar numa baliza com 7,3 metros de largura. As medidas de um campo de polo são de 275x180m, e os cavalos utilizados caracterizam-se por ter uma altura que varia entre 1,52 metros e 1,60 metros. A bola para jogar polo é branca e feita de madeira ou plástico. O taco é de cana de bambu . O jogo é disputado por duas equipes com 4 elementos cada. Estes elementos encontram-se numerados de acordo com as posições que ocupam no campo de jogo, sendo o nº1 e nº2 atacantes, o nº3 meio de campo e o nº4 defensor. Um jogo de polo dura pouco menos de uma hora, e é dividido por períodos chamados chukkas. Conforme o nível de jogo, podem variar de 4 a 6 chukkas por partida. Cada chukka tem duração de 7,5 minutos e é feito um intervalo de 3 minutos entre os chukkas. Na metade da partida é feita uma pausa de 5 minutos. Os cavalos devem ser trocados a cada chukka e só podem ser utilizados 2 vezes no mesmo jogo, podendo ser eliminados durante a partida se a sua condição física for julgada insatisfatória num dos controles veterinários que ocorrem durante a prova. Os jogos são controlados por dois juízes montados a cavalo e um árbitro que permanece fora do campo, que é consultado pelos anteriores em caso de dúvida. Os jogadores são avaliados e classificados porhandicaps numa escala de -2 a 10, sendo -2 um iniciante e 10 um jogador perfeito. Jogadores com handicap igual ou superior a 2 são considerados profissionais. Esta avaliação não é atribuída de jogo para jogo, mas sim no final de cada época. O polo tem uma particularidade que o diferencia dos outros esportes, que consiste no fato de as equipes terem de mudar de campo, e consequentemente de baliza, a cada gol que marcam. Isto acontece para que nenhuma das equipes seja beneficiada do estado do campo e das condições atmosféricas.

Técnicas do Taqueio de Polo Aplicadas a Equoterapia

Este artigo tem como enfoque dois praticantes de equoterapia que tiveram acrescidas em suas sessões, técnicas do jogo de pólo. O primeiro, do sexo masculino, na faixa etária entre 10 e 11 anos, portador de Paralisia Cerebral apresentava falta de concentração, e problema na visão, fazendo com que tivesse dificuldade em calcular a distância e a profundidade dos objetos que porventura estivessem a sua frente como por exemplo, um degrau de escada ou a sarjeta da rua, conseqüentemente com a junção dos dois problemas, tinha grande deficiência de equilíbrio; a segunda praticante estava com a idade de 13 para 14 anos, teve indicação de equoterapia para melhoramento do condicionamento físico, correção de postura e equilíbrio, devido a uma doença degenerativa dos músculos hoje, controlada; em comum com o primeiro praticante tinha também problemas de visão mas, com menor gravidade. O método a ser aplicado consiste em utilizar o tratamento da equoterapia, que é a utilização do cavalo como agente cinesioterapêutico onde, se deslocando ao passo, o animal produzirá um andar tridimensional muito semelhante ao andar humano, o qual será transmitido por inércia a quem estiver sobre seu dorso e fará o praticante buscar naturalmente, o equilíbrio para não cair do animal pois, estará sendo deslocado na ordem de até 5 centímetros, para cima e para baixo, para um lado e para o outro, para frente e para trás, e ainda acompanhando o movimento do dorso do cavalo, também sofrerá uma leve rotação da cintura pélvica, na ordem de 8 graus formando assim, o denominado movimento tridimensional. Desta forma, o praticante estará recebendo continuamente e de forma muito semelhante, estímulos em seu complexo muscular e terminações nervosas na ordem de 180 oscilações por minuto. Cientificamente comprovada ser a mais indicada para a saúde, sendo também estimulado o senso de equilíbrio que por um motivo ou outro, não possa ser trabalhado. Somando-se a isto, associaremos técnicas do taqueio do jogo de pólo a cavalo. O jogo de pólo possui quatro tacadas básicas normalmente, executas com o taco na mão direita devendo para os fins equoterápicos, o taco ser trocado de mão para que o praticante possa trabalhar os dois lados do seu corpo, bastando que sejam invertidos os movimentos. Necessário ressaltar que no jogo de pólo, os cavalos estarão encilhados e os jogadores dependerão muito do apoio dos estribos para maior precisão e alcance das tacadas; mas, precisão e alcance são irrelevantes para os fins da prática da equoterapia sendo que, o praticante poderá estar montado apenas utilizando manta, com ou sem cilhão e estribos. A primeira tacada é para frente, com a bola pelo lado direito do cavalo. O praticante deverá caso esteja montado com sela, apoiar-se no estribo para obter maior rotação do tronco; o antebraço e o braço devem permanecer em linha reta durante todo o movimento que começará quando o jogador, olhando para a bola, deslocará sua mão para trás e para cima do nível superior de sua cabeça. No mesmo instante, seu ombro direito e o braço se estendem ao máximo em cima da cabeça. Quanto mais potência se pretende da tacada, mais alta deverá ser a mão direita acima da cabeça. (Fotos 1, 2 e 3) . A segunda tacada também é para frente, com a bola pelo lado esquerdo do cavalo, o taco à esquerda do pescoço do cavalo deverá ser deixado cair para baixo e para frente. O praticante deverá girar o tronco em torno da cintura para a esquerda, deslocando o ombro direito o quanto puder; dependerá para isto do arreamento que estiver usando durante a sessão tentando colocar a linha dos ombros paralela à direção que se pretenda deslocar a bola. Nesta tacada, quando executada de maneira correta, o praticante ao girar os ombros, deverá sentar-se sobre a coxa esquerda, simultaneamente elevará a mão direita até a altura da face esquerda. (Fotos 4, 5 e 6) . A tacada para trás, com a bola para o lado direito do cavalo, é o terceiro modo de taqueio. O "back", como são conhecidas as tacadas em que ao bater na bola, a mesma será impulsionada no sentido cabeça-anca do cavalo o praticante dobrará ligeiramente seu corpo para a esquerda, suspendendo-se nos estribos caso esteja usando ficando sentado sobre a coxa direita. Ao mesmo tempo, o ombro direito apontará para frente e para baixo na direção da bola, enquanto a mão direita se eleva até a altura da cabeça, deixando o taco sensivelmente caído sobre o ombro esquerdo. Após armada a tacada, o taco desce em direção a bola. (Fotos7,8 e 9) . A última das tacadas básica é para trás, com a bola pelo lado esquerdo do cavalo, assim, o praticante deverá trazer a mão direita para o lado esquerdo do pescoço do cavalo. Caso esteja montado com sela, o praticante deverá suspender-se nos estribos, girando o ombro direito para frete do cavalo e o ombro esquerdo para trás, de modo que a linha dos ombros fique sensivelmente paralela à direção em que se quer taquear a bola. Ao mesmo tempo, o praticante erguerá seu braço direito quase que verticalmente, estendendo-o ao máximo e inclinando o taco para trás do braço. Estando nesta posição, bastará descer o taco passando rente ao pescoço do cavalo em direção da bola. (Foto 10, 11 e 12) . Conclusão : A prática da equoterapia constante e regular, por si só, já é um excelente método terapêutico para aquele que de alguma forma necessite de um tratamento diferenciado pois, o praticante estará recebendo tratamento especializado e sendo orientado por uma equipe interdisciplinar ao mesmo tempo em que sua atenção estará voltada para um local diferente dos consultórios convencionais pois, o praticante estará montando e muitas vezes conduzindo um animal muito maior do que ele. Os praticantes mencionados já praticavam equoterapia há algum tempo sem comprometimento cognitivo, com rapidez de raciocínio e de pequeno comprometimento físico. Estavam necessitando de um maior atrativo para que as sessões de equoterapia não se tornassem maçantes e cansativas assim, ao serem introduzidas técnicas de taqueio do jogo de pólo, esses praticantes tiveram grande desenvolvimento do condicionamento físico como também no equilíbrio pois, para taquear é necessário muita concentração para que se possa acertar a bola uma vez que, tanto o binômio cavalo/cavaleiro e a bola poderão estar: estáticos, deslocando-se no mesmo sentido, ou a inda em sentido contrários. Outro fator observado, foi a melhora de percepção dos objetos ou obstáculos pois, para que se acerte a tacada, é necessário que se tenha a noção exata da distância, da bola, com o tempo e sincronismo de todo os movimentos de rotação do tronco, braço e ante-braço que conduzirá o taco ao encontro da bola, sendo trabalhado neste aspecto, o ajuste fino de coordenação motora e novamente o equilíbrio. A equoterapia não é um esporte mas sim, um tratamento em que uma equipe interdisciplinar deverá atuar em comum acordo. Todas as adaptações e cuidados deverão ser tomados, respeitados os limites de cada praticante, para que a sua integridade física e psicológica não sejam agredidas ou desrespeitadas.

Carlos Odilon Vetrano de Queiroz - 1º Sargento do Exército Brasileiro da Arma de Cavalaria, trabalha com equoterapia desde 1994, serve atualmente no 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado em BELA VISTA-MS .

http://www.equoterapia.org.br/trabalho_ver.php?indice=71

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Atividade Psicomotora Equestre

O objetivo deste trabalho é articular o estímulo neuromotor que o cavalo dá, com a atividade psicomotora em clínica de transferência, na construção da criança. O método para um lado e táticas e estratégias em atividade neuromotora do sujeito, no outro. Não há dúvidas sobre o potencial do cavalo e a equitação como geradores de estímulos sensitivos. Nossa intenção é integrar, pôr em prática, a atividade psicomotora em clínica de transferência, o terceiro corte evolutivo da atividade psicomotora com nosso método de trabalho. (Método Daniele). Desde seu início em 1900 com Jenry Wallon, a atividade psicomotora registrou três cortes evolucionários, cada um deles com suas próprias características especiais por ajudar o sujeito a integrar, corpo, gestos e posição ante os olhos dos outros, mãe, pai, terapeuta. Desta maneira, ele/ela começa construindo um conceito de corpo – corpo imaginário - corpo simbólico. Esta tática e estratégias compreendem as capacidades e incapacidades do sujeito, e constroem laços desde que numa trama de transferência. O objetivo deste trabalho é de que a criança com patologias possa reconhecer-se e existir como um sujeito no qual sua imagem do corpo está em jogo. Um modo particular de abordar um paciente, onde dois campos se encontram, o orgânico e a subjetividade, e quando eles se entrelaçam o ponto de encontro surge, que é a atividade psicomotora. Estes dois campos são representados por duas esferas que parecem estar lutando para impor seu próprio peso. Na esfera do campo orgânico estão a anatomia, a fisiologia, a patologia, e a reabilitação cinética; na esfera do campo subjetivo estão a história, os jogos, e as representações. Em um lado, a ciência empírica e as técnicas derivadas, que não podem exceder seus próprios limites, que são os de ponderar e medir, ou seja, é o campo orgânico, cuja palavra moderna parece ter mais importância. No outro lado, o campo da subjetividade, onde nós não podemos parar de nos perguntar que tipo de artifício pode medir o entusiasmo ou o tédio, o interesse ou a apatia, o prazer ou a indiferença, e a incontável quantidade de ponderações que a relação ser humano-cavalonatureza produz. E neste ponto de união aparecem algumas diferenças básicas, especialmente entre o conceito de reabilitação equestre e a restauração do termo (usado pela OMS). Na reabilitação clássica, um movimento é melhor que o anterior, o objetivo é normalizar o tom. Em nosso trabalho, o movimento é um gesto feito para ser visto pelo outro, e nós não podemos dizer que este gesto é melhor que o anterior. O mesmo acontece com nossa leitura do tom transformado em posição na estrutura do sujeito. E por esta razão que nós temos adotamos a denominação de Atividade Psicomotora Eqüestre, que implica uma modificação no conceito clássico de reabilitação, não sendo apenas um nível atingível de função ou estados, como o único parâmetro evolutivo na direção do tratamento e na relação que a transferência ocupa na etapa central. A atividade psicomotora na transferência clínica analisa a dificuldade de representar o corpo e o movimento, relacionamentos de espaço e tempo, onde o sintoma psicomotor está em vista não como o sinal de dano, mas como o resultado de um epifenômeno. Nesta clínica, a transferência vem especificamente para as exigências particulares da criança e para a sua família, que coloca o terapeuta, que representa – aquele outro – numa posição de poder em que ele ou ela não pode escolher ser ou não, está outorgada a capacidade de produzir o que está em jogo neste espaço clínico, apoiado pela psicanálise, e é onde o conhecimento corporal está representado e mais relacionado; e também ao esquema corporal, o que acontece e como curá-lo, do que à imagem física. Não há clínica psicomotora, sem corpo, sem um olhar e sem os movimentos de um sujeito; e entre o pulso do corpo e o corpo em si, entre o pulso do movimento e a operação da função motora.A presença de patologias neuromotoras implica o uso de métodos cinéticos até pelos sintomas e sinais que são visíveis em cada patologia. A maneira que eles estão localizados no sujeito responde ao singular histórico na estrutura do sujeito. Sobre o nascimento, a criança traz um equipamento básico neuromotor do sentido físico do termo que satisfará a função motora na ordem psicológica. Nós falamos de naturalidade e crescimento, que têm uma legalidade temporal. Para que estas funções se complementem, devem passar pelo campo do outro, mãe, pai, de modo que possam formar sua própria imagem, a função como criança, e a operação da função motora. Esta operação da função motora coloca prazer no movimento, pulsa, exige que o outro a estimule e erotize, move-se pelo prazer da reunião e divisão. Esta escritura pulsante de movimento cruzado pela linguagem começa a construir a imagem inconsciente do corpo e do projeto motor. Deve haver uma impressão deixada que liga com uma história o que a criança construiu e constrói, que liga a infantilidade à infância. A realização é da ordem do acontecimento, uma experiência singular, estabelecida por exemplo nas conquistas de postura. Estas não são somente um ato mecânico, são partes de cenas que os outros constroem onde ele existe como sujeito. A postura é conquistada em reunião e superações do campo do outro, é uma realização psicomotora, é espacial, temporária, o ritmo varia de uma postura para outra, o eixo do corpo será o pólo de integração das sensações cinéticas que esboçará a orientação do corpo. Até que a criança possa construir sua própria auto–imagem, as sensações são fragmentadas, não há “eu” das funções imaginárias, o sujeito será capaz de apropriar a realidade, contrariamente, o músculo será mantido fora do discurso. A area clínica apresenta-se em problemas novos e diversos: - a estrutura do corpo, a lingual e o outro; - imagem e esquema corporal; - a estrutura dos sintomas psicomotores; - a transferência na clínica de atividade psicomotora; - a direção da cura; - o psicomotor no autismo e na psicose. A atividade psicomotora eqüestre levanta diferenças com a prática na cirurgia. A presença de um ser vivo em cena. Qual é o seu papel em cena? Pode tornar-se uma figura importante para aquelas crianças com quem não conseguimos nos comunicar. A presença de outros operadores como suporte técnico. Qual é o seu papel, ativo ou passivo? A transferência na equitação muda o espaço de poder? Coloca-nos mais perto do conhecimento da equitação do que do terapêutico? Como podemos reverter isso? A cena é mais ampla, e em contato com a natureza os riscos são também grandes, mas as cenas são limitadas nessa área. As cenas e a espontaneidade das criações são limitadas por razões de segurança. A duração do tempo de terapia não é mais limitado às demandas da atividade neuromotora, elas são mais longas. Sobre os diferentes passos epistemológicos: Se usamos o primeiro corte, permaneceremos ancorados na figura tridimensional da montaria, manobras de controle do tom muscular, teremos uma criança passiva, algo comum para crianças. Um terapeuta ativo e um cavalo no papel de “terapeuta”.Se nos colocarmos no segundo corte, que é concentrado no tom afetivo e emocional, estaremos “bancando” a mãe, e a criança se tornará presa à afeição e ao prazer maternal de alguém que não deveria exercitar esse papel. A prática equestre somente será significativa se o que é produzido pelo cavalo, facilitado pelo caráter tridimensional da montaria, facilitando a operação da função na ausência do corpo durar e for reproduzido no solo.

Aldo Lauhirat - Argentina

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Influência Rítmica do Volteio na Reabilitação

Volteio tem como a meta principal iniciar as crianças e jovens em geral nas artes eqüestres e a continuação de sua prática até níveis de competição. Pode ser praticada em equipes, dupla ou individualmente. Por esta disciplina desenvolvem os volteadores:Equilíbrio , Sincronismo e leveza , Respeito pelo animal . Conhecimento do Cavalo , Integração com o movimento do cavalo , Solidariedade , Altruismo e Espírito de Equipe . Competidores diretos freqüentemente participam com o mesmo cavalo, o que não impede uma rivalidade saudável com cooperação mútua antes e depois da competição. Os volteadores devem executar os exercícios com leveza, fluência, dando a impressão de facilidade e formando um conjunto harmônico com o cavalo, sem isto que afete suas andaduras com as posições diferentes dos volteadores. (Regulamento Oficial de Volteio - CBH) . O volteio é definido como uma atividade que envolve exercícios característicos da ginástica artística, dinâmicos, estáticos além de acrobáticos combinados a elementos da dança sobre o cavalo ao galope. Consiste em uma variedade de exercícios obrigatórios e livres executados individualmente, em duplas ou trios, o que pode oferecer diversas idéias de novos movimentos, combinações e variações. De qualquer maneira, mesmo quando executado individualmente, o volteio é caracterizado por um trabalho de equipe, considerando que o volteador, o longeure o cavalo formam uma equipe e dependem mutuamente um do outro. Esta união permite ao volteador ajustar-se ao movimento e ritmo do cavalo, caso contrário, nenhum exercício poderá ser harmoniosamente realizado .As séries de volteio seguem um critério estético, em que são utilizadas as capacidades físicas específicas para a realização da técnica correta dos exercícios, que devem estar em plena harmonia com a interpretação coreográfica e com o acompanhamento musical .Enquanto atividade motora, pode ser desenvolvido em diversas áreas de abrangência atingindo as dimensões:Competitiva, desta forma, o Volteio será desenvolvido de maneira a proporcionar a preparação de atletas em 4 níveis: técnica, artística, física e psicológica. Educacional, neste caso volteio pode contribuir no aumento do acervo motor e da experiência de movimento, diferenciando-se principalmente pela superfície instável, determinada pelo cavalo nas três andaduras (passo, trote e galope), melhorando especialmente as habilidades de estabilização. Além disso, a presença do cavalo como um animal de grande porte impõe respeito, fazendo com que o aprendiz adote determinadas posturas diante do cavalo, disciplinando-a e facilitando o trabalho do educador que, desde o início, deve ressaltar o trabalho em grupo, o espírito de equipe com ajuda mútua ao subir, descer do cavalo e durante a realização de novas figuras que ainda não estejam totalmente aprendidas no cavalo em movimento, assim como no cuidado com o cavalo e com o material utilizado em aula. O aluno deve aprender a respeitar e considerar o cavalo como o mais importante membro da equipe. De acordo com Rieder (1994), isto torna o volteio uma atividade que ajuda a formar personalidades. O volteio desenvolve as habilidades básicas, combinadas e seriadas, durante as diversas subidas, descidas e movimentos sobre o cavalo. As habilidades específicas são desenvolvidas na execução dos exercícios obrigatórios. As capacidades físicas e habilidades motoras são trabalhadas em todas as dimensões do volteio e sempre que possível deve-se utilizar a música desenvolvendo o ritmo e a interpretação musical; Recreação e lazer, o volteio pode ser utilizado como recreação e lazer independente da aptidão física e idade, estimulando a criatividade e aproveitando os movimentos mais simples, já que não visa a performance. Quando realizados sobre o cavalo em movimento, tornam-se um desafio, executados individualmente ou em duplas, torna-se também uma atividade muito atraente e divertida; Iniciação à equitação, o volteio também é uma forma de iniciação à equitação, sendo que o cavaleiro que inicia-se no hipismo através do volteio tende a adquirir maior confiança no cavalo, boa postura nas três andaduras (passo trote e galope) e equilíbrio; Militar, seguindo ainda hoje os objetivos historicamente apresentados, onde o policial utiliza-o para adquirir melhor controle e equilíbrio do corpo em determinadas circuntâncias. Adaptada, o Volteio junto à equitação pode ser amplamente utilizado com portadores de deficiências ou como uma nova disciplina, auxiliando no desenvolvimento das principais capacidades e habilidades motoras, psicológicas e cognitivas .

A Influência Rítmica do Volteio Terapêutico na Reabilitação
Volteio é uma modalidade eqüestre de técnica e equilíbrio, que tem como objetivo o aprimoramento da harmonia e do sincronismo com o cavalo em movimento. É uma atividade adaptável que une a prática do exercício físico ao interesse pelos cavalos, considerando que o volteador e o cavalo formam uma equipe e dependem mutuamente um do outro. A união permite ao volteador ajustar-se ao movimento e ritmo do cavalo, harmonia também exigida nas funções globais do indivíduo, auxiliando no desenvolvimento das principais capacidades e habilidades motoras, psicológicas e cognitivas.Objetivo: Avaliar a evolução funcional e emocional do indivíduo no decorrer das sessões com a utilização do volteio terapêutico. Métodos: Aplicou-se como método de avaliação a Medida de Independência Funcional (MIF) composta por dezoito itens com cotação máxima de sete pontos e mínima de um ponto, sendo que esta é fundamental para que as alterações funcionais sejam observadas com sensibilidade suficiente. Resultado e Conclusão: De acordo com os dados obtidos através da Medida de Independência Funcional, pôde-se concluir que o volteio terapêutico torna-se uma técnica de reabilitação física adaptável com primacia em ritmo e harmonia de movimentos, que visa otimizar as atividades de vida diária, a auto-estima e confiança de cada indivíduo.Foram analisadas as figuras de volteio, individualmente correlacionadas com seus prováveis benefícios motores e terapeuticamente adaptadas. Estas posturas foram aplicadas em quatro pacientes com idades entre 14 e 26 anos, portadoras de encefalopatia crônica não-progressiva e paraparesia espástica familiar.A paraparesia espástica familiar (PEF) constitui um grupo de doenças neurodegenerativas, sendo genética e clinicamente heterogênea, caracterizada por hiper-reflexia e espasticidade progressivas dos membros inferiores. A encefalopatia crônica não-progressiva é uma condição clínica e etiologicamente heterogênea, que se caracteriza por alterações do tônus muscular, da postura e dificuldades funcionais nos movimentos. Pode gerar movimentos involuntários, alterações do equilíbrio, da marcha, da fala, da visão, da audição, da expressão facial e em casos mais graves pode haver comprometimento mental (Nitrini et al, 2003) Embasado nestes conceitos, este artigo foi elaborado com o objetivo de aplicar o volteio terapêutico e a música como recurso auxiliar para estimular experimentação sensorial, o ritmo, o desenvolvimento motor e a sociabilização de portadores de necessidades especiais. Foi possível então avaliar a evolução funcional e emocional, através do método de avaliação da Medida de Independência Funcional (MIF), que possui estimativas importantes sobre os domínios da atividade quotidiana de um indivíduo.
Descrição dos exercícios obrigatórios :Base ;Na posição básica, o volteador deve estar sentado imediatamente atrás do cilhão, olhando para a frente, com uma perna de cada lado da coluna do cavalo, segurando uma alça do cilhão em cada mão. A pelve deve acompanhar o movimento do cavalo. Os MMII devem envolver o cavalo, em contato suave. Os pés devem apontar para o solo, mantendo o alinhamento da perna, o dorso do pé deve estar apontado para a frente. Variação: o volteador mantém a posição básica com abdução dos membros superiores. Os MMSS, pescoço e ombros devem estar alongados elasticamente, e não devem ser rígidos. Atividade Motora: melhora equilíbrio de tronco, principalmente com o auxílio da variação do exercício; melhora na postura e absorção da oscilação do cavalo ao passo; o cavalo em círculo, conduzido por guia longa, favorece as reações de proteção e endireitamento do indivíduo. Adaptação: correção postural, não utilização do cilhão por encurtamento da musculatura adutora, espasticidade e/ou déficit de força muscular.Variações com os membros superiores para maior recrutamento de equilíbrio e coordenação motora. Manter a dorsiflexão em casos de inibição de padrão patológico.Moinho ;A partir da posição básica, o volteador executa uma rotação completa sobre o cavalo, em quatro fases de tempo iguais. Fase 1 : a perna externa passa sobre o pescoço do cavalo (externa em relação a parte interior do círculo), cada alça é largada e retomada à medida que a perna passa por ela. Esta fase termina com o volteador sentado de lado voltado para o interior do círculo, sobre o quadril, pernas unidas envolvendo o cavalo. Fase 2 : a outra perna passa então sobre a garupa do cavalo, termina com o volteador sentado na posição básica invertida. Fase 3 : a perna interna passa sobre a garupa do cavalo, e o volteador senta de lado voltado para o exterior do círculo. Fase 4 : a perna que está junto ao cilhão passa sobre o pescoço do cavalo, cada alça é largada e retomada à medida que a perna passa por ela, termina com o volteador na posição básica. O moinho é executado com ritmo de contagem em quatro tempos, cada perna deve descrever um arco uniforme e amplo, idealmente na vertical. A cabeça e os ombros devem acompanhar a rotação de cada perna com manutenção de postura.Atividade Motora: ritmo, coordenação motora, fortalecimento muscular (músculos adutores e abdutores de quadril, flexores de quadril e abdominal).Adaptação: as alças do cilhão podem ser de tamanho menor e evoluírem para as de tamanho normal, devido à presença de encurtamento muscular e/ou espasticidade. Pode ser realizado primeiramente com o auxílio de um terapeuta lateral durante as transferências com o cavalo parado, evoluindo para a realização das mudanças de postura com o cavalo em movimento.Ajoelhado / Estandarte; A partir da posição básica, o volteador passa à posição ajoelhada. Suavemente, com os dois joelhos simultaneamente, o dorso dos pés, os tornozelos e após estes os joelhos devem tocar a garupa do cavalo. O volteador deve estar sempre olhando para a frente, a perna externa deve cruzar diagonalmente sobre a coluna do cavalo, com o pé interno do volteador colocado no lado externo também. O peso deve estar distribuído uniformemente através da perna, tornozelo e dorso do pé, o joelho interno deve estar ligeiramente à frente da coxa, a fim de auxiliar o joelho e quadril a absorverem suavemente o movimento do cavalo. A perna externa é então estendida, a fim de que o pé fique colocado acima da linha horizontal formada através dos ombros e quadril do volteador, ao mesmo tempo o braço interno é alongado para a frente. A planta do pé externo deve estar virada para cima e a palma da mão interna para baixo, com os dedos fechados. A mão externa permanece na alça, com o braço ligeiramente flexionado para absorver o movimento do cavalo. A silhueta do volteador deve formar um arco suave e equilibrado, desde a ponta dos dedos da mão até os dedos do pé. O eixo longitudinal do corpo do volteador deve estar no mesmo alinhamento da coluna do cavalo.Atividade Motora: descarga de peso, equilíbrio dinâmico, fortalecimento muscular (músculos flexores de quadril, glúteo médio e mínimo, paravertebrais), reações de proteção e endireitamento, noção espacial, lateralidade, postura. Adaptação: o exercício pode ser iniciado no colchonete, depois no barril e/ou com o cavalo parado e com as mãos nas alças, evoluindo para a liberação das mãos alternadamente. A evolução do ajoelhado é o estandarte que pode ser feito primeiramente sem a liberação das mãos, apenas com a extensão de uma perna e evoluir para a retirada e extensão do braço contralateral; pode ser realizado no colchonete e no barril como preparação para o movimento.Em Pé ; A partir da posição básica, o volteador passa suavemente à posição de joelhos simultaneamente com as duas pernas, o dorso dos pés, o tornozelo e os joelhos devem tocar as costas do cavalo suavemente. Imediatamente o volteador transfere o peso do corpo para os braços e pula para de pé, apoiando-se na planta dos pés, que devem estar apontando para a frente. Para compensar o movimento em círculo do cavalo, a descarga de peso deve estar no pé interno do volteador. A evolução do exercício é extensão de tronco e encaixe de quadril; quando estiver em equilíbrio com o movimento tridimensional do cavalo solta as alças e eleva os ombros até chegar à posição vertical, quando então abre os braços lateralmente. O movimento do cavalo é absorvido pelos tornozelos, joelhos e quadril do volteador; seu peso deve estar bem distribuído na planta dos pés, que devem estar em contato total com o cavalo (Paes et al, 2001).Atividade Motora: adequação tônica, descarga de peso, equilíbrio dinâmico, fortalecimento muscular de MMII, reações de proteção e equilíbrio, postura. Adaptação: é uma das figuras mais difíceis, pois requer maior concentração e habilidade motora. Pode ser realizada com um terapeuta montado na cernelha e/ou dois terapeutas laterais, com o cavalo parado ou em barril de volteio para adaptar o indivíduo à postura; pode-se iniciar esta postura com o cavalo ao passo e em direção linear. O cavalo em círculo seria uma evolução do exercício porque exige do volteador maior habilidade e equilíbrio.
Resultados & Conclusão
Cada um dos dezoito itens da MIF tem uma cotação máxima de sete pontos e a cotação mínima é de um ponto. A cotação mais elevada é, portanto, de 126 e a mais baixa é de 18. A cotação em sete níveis é fundamental para que as alterações funcionais sejam observadas com uma sensibilidade suficiente. Avaliação de Medida de Independência Funcional ;
Resultados B.G M.H A.S V.S
Ano 1 106 120 98 96
Ano 2 111 125 102 103
Os quatro indivíduos analisados obtiveram uma boa média nos resultados da M.I.F, que foi utilizada como parâmetro para a iniciação do volteio terapêutico. Ao final do estudo todos os indivíduos aumentaram significativamente suas médias. Ao analisarmos os resultados, consideramos então a evolução dos indivíduos nos aspectos geral, ritmo, desenvolvimento e sociabilização. No aspecto geral os resultados foram satisfatórios, pois ao final do primeiro ano conseguimos elaborar, montar e apresentar uma coreografia. A coreografia foi montada com a colaboração dos indivíduos, que também escolheram a música a ser trabalhada. No aspecto ritmo pôde-se observar melhoras funcionais, pois os indivíduos conseguiram adquirir habilidades para acompanhar a marcação de tempo nos exercícios propostos por palmas e contagem numérica realizada pelo terapeuta. Em relação ao desenvolvimento motor, foram observadas melhoras significativas, pois verificamos que os movimentos utilizados na coreografia foram automatizados e memorizados, sendo realizados com harmonia e equilíbrio. Em relação à sociabilização, no início todos os indivíduos otimizaram a idéia, porém houve um caso de rejeição às terapias em dupla. Foi possível visualizar a melhora na auto-estima por meio da crescente preocupação das alunas com o asseio pessoal e com o visual. Conclusão ; O desenvolvimento de um indivíduo normal depende de sua capacidade de movimentar-se e experimentar sensações. As experiências favorecem a assimilação de novas estruturas, ou seja, o ato motor promove aprendizagens que facilitarão futuras aquisições básicas (Zaniolo e Kubo, 1993). Segundo Bobath, o desenvolvimento perceptual e visuomotor do indivíduo é influenciado pelo seu desenvolvimento motor; portanto, se ocorrerem dificuldades na movimentação e exploração do próprio corpo, ocorrerão dificuldades no seu desenvolvimento global (Bobath, 1990). Os indivíduos portadores de necessidades especiais exploram e relacionam-se pobremente com seu próprio corpo e com o meio externo, devido às dificuldades na execução dos movimentos, dificultando assim a aquisição de novas habilidades e experiências. As atividades rítmicas permitem ao indivíduo expressar o movimento e o seu estado de ânimo momentâneo. Por intermédio de atividades rítmicas é possível realizar contração e relaxamento muscular, forte ou fraco, rápido ou lento, com velocidade acelerada ou diminuída e com durações diferentes (M.P.E., 1990).Estas atividades desenvolvidas com portadores de necessidades especiais têm como objetivos proporcionar prazer, estimular a experimentação de movimentos livres, naturais e específicos para que possam expressar a alegria do movimento, desenvolver a capacidade de concentração e preparar-se para as atividades de vida diária (Holle, 1976). O Volteio como recurso terapêutico tem como objetivo desenvolver movimentos rítmicos, a coordenação motora, a harmonia e controle de movimentos, postura, propriocepção e reações de equilíbrio criando habilidades motrizes básicas e artísticas. A partir dos resultados alcançados acreditamos que com a música e o volteio terapêutico possibilitamos, a estes indivíduos, experiências novas e agradáveis estimulando suas vias sensoriais e motoras e conseqüentemente um desenvolvimento psicomotor mais próximo dos padrões da normalidade.

XII Congresso Brasileiro de Equoterapia Autor: Adriana Perdigão - Brasil Co-autores: Érika Quartim; Rebeca Santos