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quarta-feira, 3 de março de 2010

Pensando Cavalo

O livro, Horses and Horsemanship, escrito por M.E.Esminger, professor da Universidade Estatal de Wisconsin, E.U.A., (também citado no livro Classical Horsemanship de Winnie Sott*) diz que existem fósseis de uma família de eqüinos que data da Era Terciária, ou seja, o cavalo existe acerca de 58 milhões de anos.Isso me faz pensar que este animal é um vencedor porque, sendo "predado", teve que desenvolver um sistema de auto-preservação extremamente sofisticado para sobreviver até os nossos dias. Portanto, quando empina, corcoveia, manoteia, empaca, escoiceia, morde, dispara, assusta-se com os mais inusitados objetos, quer apenas salvar sua vida. Muita gente pensa que, pelo fato de ele hoje, na maioria das vezes, ser criado e manejado em haras e fazendas, a partir de técnicas específicas de criação profissional, tenha perdido esse instinto de auto preservação, o que não é verdade; esse instinto é uma demanda arquetípica. Penso que com as pessoas acontece de forma semelhante.Historicamente, o cavalo faz parte da vida do homem há 5000 anos. Quando este o montou pela primeira vez, não havia ninguém para lhe servir de modelo. Deve ter aprendido a partir das suas próprias observações; foi lhe necessário estudá-lo, ou seja, perceber como ele operava física, mental e emocionalmente. Não sei como se deu esse primeiro encontro.Talvez tenha encontrado um potro cuja mãe tenha sido morta por algum predador e resolveu criá-lo. De qualquer modo, ganhou sua confiança. Em seguida, pensou que pudesse montá-lo e, ao fazê-lo, deve ter se sentido muito mais poderoso - o que certamente lhe provocou uma emoção muito forte - uma vez que poderia saltar mais alto e correr mais rápido do que fazia antes; deve ter sentido como se o cavalo fosse a sua própria extensão. Nesta interação constatou que o cavalo foi seu primeiro professor, e assim é; o cavalo é o nosso melhor professor.Xenofontes, um general grego, escreveu há mais de 24 séculos um livro intitulado: "A ARTE DO HORSEMANSHIP". Esta obra consta da maioria das bibliografias sobre estudos a respeito do manejo, maneiras de montar e disciplinar cavalos. Todos os autores que o conhecem são unânimes em dizer que o livro é de uma clareza ímpar no que se refere ao conhecimento sobre cavalo.Sua postura implicava no respeito, na segurança, no conforto e na compreensão do animal, quando em treinamento. Ele diz: - "Nada forçado e sem compreensão pode ser belo". - "Os potros devem ser treinados de tal maneira que não só gostem de seus cavaleiros, mas que também estejam esperando ansiosamente por eles no dia seguinte".Não sei o que aconteceu no curso da história para que essa postura tenha sido abandonada e substituída por aquelas de confronto e intimidação, abusando do chicote e da espora para discipliná-los.Em todos os meus artigos, tenho falado insistentemente que a maioria das pessoas não observa que o cavalo é um animal "predado" e, por isso, a necessidade do instinto de auto- preservação. Portanto, quando se lida com esses animais, não levar em consideração esse fato é trombar de frente com eles.O cavalo não responde àquilo que estamos pedindo, por três razões básicas: por não compreender, por estar confuso ou, ainda, por não ter lhe sido ensinado. Se não levarmos em conta esses fatores, estaremos procurando briga e, com certeza, vamos encontrar, com a agravante de que sempre vamos sair perdendo, pela razão mais óbvia: ele é mais forte que nós. O que devemos fazer é lhe dar tempo para que possa aprender e compreender o que estamos pedindo. Não há atalhos e a única mágica que existe somos nós e o nosso cavalo, ajustando-nos a cada situação que aparece, procurando Sentir o seu Timing a fim de que possamos ter uma relação mais Equilibrada, e com isso conseguirmos uma posição mais adequada de onde ele possa começar melhor.Nos meus 26 anos de atividade, tenho ouvido muitas pessoas dizerem que, se não quebrarmos o Espírito do cavalo, ele vai ficar com o Pulo escondido e que mais dia menos dia esse Pulo vai aparecer. A meu ver, o Espírito talvez seja a parte mais importante do cavalo e o que mais quero é construir esse Espírito, porque só assim vou poder utilizá-lo. O cavalo tem uma psicologia própria que controla seu corpo, ou seja, suas pernas e seus pés. Observo as pessoas lidando com eles, não levando em conta que essa necessidade básica de auto-preservação faz parte de seu mundo, portanto, pensam, são sensíveis e tomam decisões, assim como nós.Sinto que o problema todo reside na necessidade de reconhecermos o antagonismo entre as duas naturezas. Sendo o homem predador e o cavalo "predado", fica evidente que somos biologicamente antagônicos. Nosso trabalho é garantir a ele que pode conservar seu instinto de auto preservação e ainda responder ao que lhe estamos pedindo. Isto será muito útil, tanto para nós como para o cavalo.Minha maior preocupação, quando estou iniciando um potro, é lhe deixar o mais claro possível que não precisa ter medo nem se proteger. Gosto de dar-lhe tempo para compreender o que quero dele. Às vezes, ir devagar é o jeito mais rápido de se chegar a algum lugar. Não quero, de maneira nenhuma, assustá-lo. Se ele ficar com medo de mim, na próxima sessão estará também com medo, pois estará esperando por isso, assim que me vir. Aplicar uma pressão inadequada, quer dizer, apressar o programa de treinamento por qualquer razão, obrigá-lo a trabalhar até o cansaço extremo, não lhe dando o Tempo necessário para que possa compreender o que espero dele vai despertar seu instinto de autopreservação, o que ele tem de mais forte, gerando confusão e, conseqüentemente, rebeldia. O cavalo é um ser naturalmente liderado, portanto, nosso trabalho é liderá-lo da mesma forma que um cavalo faz para controlar outro. Pensar que com açúcar e cenoura vamos conseguir lhe colocar sela e fazê-lo trabalhar para nós é pura ilusão Waltdisneyana. Ele vai nos testar em nível de nossa capacidade de liderança, muitas vezes em situações realmente difíceis. Temos que provar que não somos predadores, mas sim líderes, preparando-nos para as situações que ele vai nos criar, antecipando-as, sem lhe causar susto, medo ou dor, situações que lhe permitam tomar decisões corretas em relação a nós. Por exemplo, no trabalho de redondel,a atitude é incorreta é quando ele pára com a cara virada para a cerca, o que significa que vai trabalhar (galopar) mais. A atitude correta é quando pára com a cara virada para o seu treinador; então, a pressão deve ser aliviada imediatamente, permitindo que descanse e perceba que é isso que se espera dele. Assim, estaremos trabalhando através da sua mente.Quando aprendemos a fazer uma leitura do cavalo através da observação de suas expressões, crescem nossas possibilidades de comunicação. O que dizem suas orelhas, seus olhos, sua boca? Suas ações também vão nos dizer o que está acontecendo: quando está compreendendo ou quando não está, quando está com medo ou quando está agressivo. Interpretar o nível de aceitação representado por essas atitudes é o nosso Gol. Aprender a ler o cavalo é aprender uma linguagem nova é a comunicação através da sensibilidade, e isso só se consegue com a mente aberta. De nada adianta uma atitude arbitrária, opressiva, como se fôssemos superior a ele.Temos de permitir que ele aprenda. Por exemplo: quando quero ensinar meu cavalo a virar a cabeça para a direita, encurto a rédea direita; assim que percebo a menor tentativa de ele me dar a cabeça, alivio a pressão. Rapidamente ele compreenderá, porque estará procurando por aquele ponto (alívio da pressão), e assim estarei dando-lhe uma razão, um significado para fazer aquilo.Existem pessoas que chamam esse procedimento de Doma Racional. Prefiro chama-lo "Doma" "D inâmica O rganizada m ovimento a destrado". Tenho que ter muita Doma para que possa pôr Doma no meu cavalo; a atitude "Doma" é responsabildade mútua.Nunca sei o que vou fazer quando chego perto de um cavalo pela primeira vez. É ele que vai me dizer o que fazer e como fazer. Quero estar conectado com ele e poder dar-lhe o Tempo que precisar para que me compreenda. Procuro um entendimento de parceria, não estou interessado em escravidão. Quero a interação mais profunda possível naquilo que eu e ele estamos nos propondo a fazer juntos.

Fonte : Eduardo Pacheco Borba
*Grifo nosso

sábado, 7 de novembro de 2009

Sobre Equitação e Liderança

Há milhões de anos, os antepassados do Homem começaram a organizar sistemas de cooperação através dos quais foram capazes de realizar melhor as tarefas de coleta e caça e a defesa do grupo, atividades vitais para a sua sobrevivência. Em cada grupo de hominídios havia uma hierarquia onde os machos e as fêmeas dominantes tomavam decisões acerca da coleta de alimentos e captura de animais, da organização interna e da defesa do grupo contra as ameaças externas. Os cavalos selvagens, pela mesma razão, formam hierarquias onde cada animal cumpre a sua função de acordo com o seu lugar na ordem social. O macho dominante é responsável pela defesa do grupo e pela fertilização das éguas e as fêmeas dominantes cuidam da ordem interna do grupo – isto é, elas botam animais com comportamento anti-social no seu devido lugar e determinam quem vai beber primeiro em bebedouros apertados e quem vai pastar nos melhores espaços do campo. Isto, além de cuidar dos seus próprios filhos. Quando um homem e um cavalo, vindos de duas organizações sociais com estruturas básicas semelhantes, mas com linguagens diferentes, se unem para formar um conjunto eqüestre, o elemento mais importante para o sucesso deste empreendimento é a capacidade do Homem entender quais são os deveres e limites da sua liderança na equitação. Em outras palavras: para fazer o cavalo se integrar às suas propostas esportivas, é importante o cavaleiro entender os princípios que regem a hierarquia eqüina. Considerando que não existem indivíduos iguais na natureza – todo ser é único, e por isso é impossível haver igualdade — os cavalos tem razão, alguém precisa assumir o comando. O ‘macaco pelado’, apesar da sua natural inclinação para a demagogia, também sabe que não existe igualdade no exercício do poder. Por esta razão ele inventou a palavra monarquia para denominar o governo exercido somente por uma pessoa e triunvirato para o caso de três indivíduos dividem o poder. Mas não existe um nome para definir o poder exercido igualmente por duas pessoas, porque isto é uma impossibilidade política. Portanto, o primeiro passo para um cavaleiro obter sucesso esportivo é assumir a liderança do conjunto – seja o seu parceiro um garanhão, égua ou cavalo castrado. Diante de uma liderança, firme, justa, leal, e que também traga satisfação para o liderado, qualquer cavalo normal se submeterá à liderança do cavaleiro na hierarquia da equitação. Mas é aí que a coisa pega. O exercício da liderança estimula o melhor e o pior do caráter humano, como você já deve ter notado. Os cientistas sociais estudam, agora, como a nossa natureza reage ao exercício do poder e já começam a entender como isto determina o sucesso ou o insucesso de uma liderança. Os conceitos básicos de liderança servem tanto para governar uma nação, quanto para administrar uma empresa ou para se equitar um cavalo. Se um cavalo for submetido a uma equitação tirânica ele poderá ser levado ao desespero e à rebeldia, principalmente se o seu temperamento e índole o qualifica para ocupar um posto alto na hierarquia eqüina. Se, ao contrário, um animal for submetido a uma equitação sem liderança ele saberá assumir o governo das rédeas, mesmo que o seu lugar natural na hierarquia eqüina seja de baixo nível. Assumir uma liderança ou se submeter a uma posição subalterna é, para o cavalo, natural e necessário – porque é dessa maneira que ele sobrevive como espécie há milhões de anos. À exceção das antigas culturas eqüestres dos nômades da Ásia Central, que se desenvolveram num meio ambiente que dificilmente poderá ser repetido, os cavalos raramente foram liderados com compreensão e justiça. Na máquina econômica e militar do ocidente, o animal foi utilizado e manejado como um escravo, por pessoas geralmente desqualificadas para esta importante responsabilidade. Na Inglaterra, no século 19, acreditava-se que os trabalhadores braçais fossem incapazes de desenvolver uma boa equitação por terem perdido a sensibilidade das mãos, ‘calejadas’ pelo trabalho. Isto é apenas mais um equívoco do ‘velho mundo do cavalo’. Algumas pessoas realmente não conseguem atingir um bom nível de equitação – mas não por terem excesso de calos nas mãos –apenas por falta de uma educação que poderia, também, ter lhes dado um posto mais alto na hierarquia humana. Convém, para ganharmos maior compreensão sobre o conceito de liderança na equitação, fazermos uma breve análise do que esta palavra significa na prática. Vejamos: exercer uma liderança é saber se fazer obedecer. A forma mais elementar de se fazer obedecer é através da repressão e da tirania. Este modelo de liderança tem sido exercido nas organizações militares há milênios. A forma repressiva de liderança se consolidou entre nós porque ela é mais econômica – dispensa muita conversa, sutileza e diplomacia, possibilitando a administração de um grande número de soldados por um pequeno número de comandantes. Mas temos, também, exemplos de liderança carismática vindos dos altos escalões militares. O discurso de Henrique V da Inglaterra para os seus soldados momentos antes da batalha de Agincourt, onde os ingleses estavam em desesperada minoria contra os franceses, está entre os melhores exemplos de liderança já registrados. Disse o rei dos ingleses: “Se nós estamos marcados para morrer somos, em número, o bastante para fazer falta ao nosso país; e se estamos marcados para viver, quanto menos formos, maior será o nosso quinhão de glória; deste dia em diante, até o fim do mundo, nós seremos lembrados; nós, os felizes poucos; nós um bando de irmãos”. As palavras do monarca ainda são capazes de emocionar, quatro séculos depois da manhã chuvosa em que elas foram pronunciadas (1).
O repressivo sistema militar se consolidou de tal maneira na nossa sociedade que, até a década de 60 do século 20, serviu de modelo administrativo para grandes empresas americanas e européias. E, há séculos, o nosso relacionamento com o cavalo e as técnicas de doma e equitação também foram exercidas com os critérios disciplinares repressivos copiados do exército. E deu no que deu. O cavalo esportista tem necessidades básicas, tanto fisiológicas quanto psicológicas, que precisam ser satisfeitas para que ele atinja um alto nível de performance. A forma mais eficiente de liderança, e a melhor para se lidar com a natureza do animal, é a liderança esportiva onde o carisma e a capacidade de inspirar os atletas é a alma do sucesso. Aquele décimo de segundo a menos na corrida, aquele centímetro a mais na vertical do salto, aquela manobra radical no pólo e o toque extra de precisão no dressage são impossíveis de se obter por meio de coação – como já explicou Xenofonte há mais de dois milênios. Aquele ‘algo mais’ que determina as vitórias surge da absoluta cumplicidade entre cavaleiro e cavalo, quando estes fundem as suas qualidades fisiológicas para se tornarem uma só força avassaladora na conquista dos seus objetivos. A decisão de se tornar cavaleiro envolve, mais do que tudo, assumir uma liderança inteligente capaz de motivar o cavalo, desenvolver a vocação atlética do animal; reconhecer os seus limites psicológicos e físicos, e encontrar soluções que favoreçam o desempenho do animal. Não é por acaso que a liderança e a equitação estão associadas ao progresso individual e social do Homo sapiens desde que os primeiros bandos de guerreiros nômades da Ásia Central compreenderam que, com o cavalo e a equitação, eles tinham descoberto a chave para liderar o mundo.
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A boa equitação é, sobretudo, um exercício de liderança. E a liderança, como tudo na vida, pode ser exercida de maneira inteligente ou de maneira estúpida. É inteligente quando atinge um alto nível de satisfação e realização para o líder e o liderado, e é estúpida quando a liderança serve apenas para a satisfação pessoal do líder e para a sua conseqüente e inevitável queda do poder. A qualidade de equitação de um povo esteve sempre vinculada ao seu desenvolvimento cultural, e o nível de equitação atingida por uma pessoa reflete inequivocamente o seu preparo para o exercício do poder. A equitação é uma metáfora da vida – o tombo do cavalo e a queda do poder, estão diretamente ligados à incompetência no exercício da liderança e do poder. A sensibilidade de desenvolver uma liderança inteligente, de assumir responsabilidades, de resolver problemas, de reconhecer o erro e tentar de novo, está na base do sucesso — qualquer sucesso. A equitação é uma metáfora da vida. A queda do poder e a queda do cavalo estão intimamente ligadas ao exercício da liderança e à arte do bem viver.
(1) Trechos do discurso de Henrique V, segundo a peça de Shakespeare com este nome.

http://www.desempenho.esp.br/livro/get_capitulo.cfm?id=578

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os Principios do Horsemanship na Equitação Especial



Existem quatro princípios básicos para aqueles que trabalham com o cavalo de Equoterapia desenvolverem melhor seu feeling e melhorar o rendimento dos animais no ambiente terapêutico:

1) Aprender a pensar como os cavalos pensam: os cavalos são animais que possuem características instintivas de presas. Os seres humanos são predadores natos, também com características naturais de predadores. Se pensarmos como predadores para trabalhar com presas, estamos gerando sempre medo e desconfiança, resultando na queda de desempenho, quando não em acidentes de trabalho. Para aprender a pensar como presas devemos estudar o comportamento natural dos cavalos.
2) Aprender a pensar e enxergar do ponto de vista do cavalo, de acordo com sua natureza: temos que nos acostumar cada vez mais a enxergar o ponto de vista dos cavalos nas rotinas do dia a dia. Estudando o comportamento natural dos cavalos, devemos sempre fazer a seguinte pergunta: “Se eu fosse presa, , um cavalo, de acordo com a natureza destes animais, como eu reagiria a esta ou aquela situação?”
3)Ter um “timing” apurado: timing significa ter uma noção exata de quando, como e porque fazer algo positivo ou punitivo a um cavalo. Devemos aprender a julgar situações em frações de segundos para que possamos corrigir ou reforçar positivamente um cavalo nas rotinas do dia a dia;
4)Ter um foco definido: temos que saber exatamente o que queremos com um cavalo, tanto em termos de futuro, projetos, idéias e planos, como no simples colocar de um cabresto. Sem um foco claro do que queremos, estaremos gerando dúvida e confusão, o que conseqüentemente nos colocará diante de um cavalo com medo e apreensão.
(Equitação Especial)